.

Este blogue não tem a pretensão de ser um espaço de crítica gastronómica, atividade para a qual o seu autor não se sente qualificado. Nele apenas ficam registadas meras impressões pessoais, sempre subjetivas e em nalguns casos eventualmente injustas, de alguém que se dispõe a partilhar a opinião que formou em visitas a alguns restaurantes. Quem lê os textos aqui inseridos deve, assim, ter sempre presente esta assumida limitação de propósitos. Bom apetite!

9.5.15

Imperial de Campo de Ourique


Olhando de fora, nem sequer é muito óbvio de que se trata de um restaurante. Entra-se e, à direita, tem um daqueles balcões longos e altos que são a imagem de marca de estabelecimentos similares. Por detrás dele está a cozinha. Dessa sala de entrada, onde também se pode abancar (foi ali que o fizémos, aliás) passa-se a outra, nas traseiras, onde a amesendação da "Imperial de Campo de Ourique" tem o seu lugar nobre. Mas tudo é muito simples: mesas e cadeiras metálicas, individuais e guardanapos de papel.

O senhor João, minhoto de Ponte da Barca, recebe-nos com a generosa qualidade de quem é do norte: caloroso, envolvente, agradado por poder agradar, preocupado por não poder acolher-nos na sala principal. Eu e quem me acompanhava não íamos muito preocupados com o poiso. Íamos diretos à chanfana que, na 6ª feira, é o prato de resistência, a imagem de marca da casa, a par, noutros dias e em tempos adequados, da lampreia, que o senhor João arranja "lá em cima", de qualidade e que, consta, é muito recomendável. 

A lista, nesse dia, não se esgotava, porém, na chanfana "à casa". Por ali havia uma feijoada à transmontana que espero em breve testar e um bacalhau assado com batata a murro que me levou os olhos, numa travessa que passou. E outras coisas, como dourada ou carapaus grelhados, o bacalhau à Brás, as clássicas iscas de porco e outros grelhados usuais na restauração lisboeta. Noutros dias há coisas diferentes, como salmão, pataniscas e outros pratos Ah! e, claro, a dose, em nenhum caso, excede os 10 euros, pelo que, nem com esforço!, a fatura final passará além dos 15 euros.

Começou-se com uns bolos de bacalhau, com textura certa. O vinho escolhido foi o da casa, de "um primo da Ermelinda de Freitas", segundo o senhor João nos informou. Era amplamente "buvable", como se viu na repetição das canecas a que as três horas de conversa obrigaram. Não experimentei a aguardente de terras da Barca que o senhor João trouxe para a mesa (limitação de quem tinha de dar uma aula nessa tarde!), mas não resisti ao arroz doce (um pouco líquido de mais para o meu gosto) com que se fechou o repasto. Também o apetecível bolo de bolacha e o pudim (muito gabado por quem o provou) ficaram para outras visitas. 

Há dias, publiquei por aqui um despretensioso "guia" da oferta gastronómica em Campo de Ourique. Hoje, de baraço ao pescoço, qual Egas Moniz, devo reconhecer o erro de não ter incluído esta "Imperial de Campo de Ourique" (que me trouxe à memória a sua saudosa homónima do Campo Pequeno, cujo encerramento nunca lamentarei suficientemente). A retificação devida vai ser feita.

"Imperial de Campo de Ourique"
Rua Correia Teles, 67
Tlf. 21 388 60 96
Fechado aos domingos. 
Nem sempre abre ao jantar, o que, no entanto, faz sempre que haja reservas atempadas      

4.5.15

Bairro Alto

 
Ontem, domingo, deu-me para ir jantar ao Bairro Alto. A (re)viver em Lisboa desde há mais de dois anos, dei-me conta que o Bairro Alto deixou de ser o local onde, no passado, ia muito frequentemente, a restaurantes e alguns bares. Entrei no bairro ido do Camões e, de repente, "perdi-me"! Eu já não conheço "aquele" Bairro Alto! Andei por ali uma boa meia hora, cheio de curiosidade. Passei por dezenas de restaurantes, tascas e bares cuja existência e nome desconhecia por completo, só de quando em vez ouvi alguém falar português e, mesmo nesse caso, era quase sempre com acento brasileiro. Verdade seja que não me senti minimamente tentado a entrar em nenhum daqueles espaços, que têm o mesmo atrativo para um nativo do que a rua das Portas de Santo Antão (com exceção do Gambrinus e do Solar dos Presuntos) ou a rua Jardim do Regedor. Mas fiquei imensamente satisfeito por ver o bairro cheio de gente, com os restaurantes "à cunha", numa noite quase-chuvosa de domingo, com um ambiente cosmopolita, que nada fica a dever a outras áreas similares por esse mundo fora. O movimento nesta zona de Lisboa, que se prolonga por Santa Catarina, pela Bica e chega ao Cais do Sodré, tem hoje um turismo pujante. E ainda bem! Espreitei o Alfaia, mas já nem tinha os "lombinhos à indiana" na lista afixada na porta. Confirmei que a Tasca do Manel e o vizinho Fidalgo estavam fechados, o mesmo era verdade para o Pap'Açorda e o Casanostra. Idem para a Primavera e o 1° de maio. Não testei o novo registo do BarAlto e o Bota Alta estava de folga. Não me aventurei pela zona longínqua do Cem Maneiras ou para os lados do Farta Brutos. Aqui entre nós, este Bairro Alto, em toda a sua glória turística, é hoje uma ilha estrangeira em Lisboa. E se acho isso bem simpático, vi-me a concluir que o bairro deixou (em definitivo?) de me atrair (dizem-me que há umas lojas giras durante o dia). No fim desta breve incursão, gastronomicamente frustada, decidi ir jantar a outro lado. Ali perto, o SeaMe estava a abarrotar, a Taberna da Rua das Flores nem luz tinha, pelo que acabei na Brasserie de l'Entrecôte, por grande sorte de uma marcação de alguém que faltou à última da hora. Como dizia o Camilo de Oliveira: "isto é que vai uma crise!"

26.4.15

Os outros constituintes


No dia em que, em Portugal, se comemoraram 40 anos sobre a eleição da Assembleia Constituinte, foi criada em Lisboa a Academia de Gastronomia da União Europeia.

Na foto, da esquerda para a direita, Maciej Dobrzyniecki, presidente da Academia de Gastronomia da Polónia, Rafael Ansón, presidente da Real Academia de Gastronomia Española, em representação da Academia Internacional de Gastronomia, José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia, e Carlos Fontão de Carvalho e o titular deste blogue, diretores desta última Academia.

Restaurante Lameirão (Vila Real)



(Apontamento publicado na revista "Evasões" em 24.4.2015)



COMER EM CASA


Era um hábito arraigado numa certa província. Ao final da tarde, “entre homens”, à mesa ou ao balcão, organiza-se um “lanche”, já ajantarado, à volta de um salpicão, um presunto, um chouriço assado, acompanhados por vinho, hoje também muito por cerveja. Em Vila Real, lá para Trás-os-Montes, estas “tainas” ainda ocorrem, ao cair do dia, num ritual tecedor de laços de amizade madura e machista, com conversas de futebol ou de política.
Foi nesta nobre linhagem de tradição vila-realense que o “Lameirão” nasceu. Com o tempo, veio a evoluir para a normal oferta de almoços e jantares. E começaram a chegar as famílias por lá. As instalações modernizaram-se, sob risco de arquiteto, não fosse o seu dono, Eleutério Lameirão, um ainda profissional do desenho técnico. Desde meados dos anos 90, foi-se o balcão, ficou uma sala moderna com cerca de 40 lugares, alargados no Verão para uma pequena mas simpática esplanada exterior.
Na cozinha, Luísa, irmã do Eleutério, é a mestra do “back-office” gastronómico. Na sala, o proprietário e a mulher, Alice, afadigam-se no serviço: simples, sem sofisticações, como numa casa de família. Chegue cedo. Às vezes, nos dias de enchente, as coisas tomam o seu tempo, mas ninguém vai para ali com grandes pressas.
Convém começar por perguntar o que há. É que todos os dias, sem exceção, a oferta varia. A cada refeição, há sempre e só quatro pratos. Se arribar tarde, as opções vão escasseando (com o recurso último ao bife).
Abra a função (recomendo vivamente!) por uns rissóis, de carne ou de camarão, e/ou bolos de bacalhau, No lugar do leitor, tenderia a optar depois pelas especialidades regionais: a “feijoada de feijoca”, a “vitela estufada ou assada”, as “tripas aos molhos ou com feijão”, as “sardinhas com arroz de feijão”, a “mãozinha de vitela com grão”, o “rancho”, o “entrecosto”, a “feijoada com feijão branco ou vermelho”. Várias vezes por semana, pode encontrar também as “pataniscas de bacalhau”, os “panados” ou o “arroz de polvo”. E pouco mais. Mas chega, acreditem.
Nos doces, a tradição da casa, todo o ano, são as magníficas “rabanadas”, mas o “bolo de chocolate” e o “leite-creme” também se recomendam.
A carta de vinhos é (lamentavelmente) pobre, com os Douro a fazerem as honras da casa: o melhor que hoje por lá há são as versões mais correntes do “Vallado” e do “Quinta do Crasto”. Os preços dos pratos são moderados: as fartas meias-dose rondam 7 euros, as doses (para duas pessoas) 13 euros.
O Eleutério não tem pretensões de entrar no Michelin ou nos Garfos de Platina. Quer apenas oferecer-nos uma comida genuína, na sua quase imbatível relação qualidade/preço. E quer que saiamos satisfeitos. Eu saio.


***
O LAMEIRÃO
EN2 (saída norte de Vila Real)
Lugar das Flores
A 500 metros do IP4
Tel. 259 346 881
Fecha 4ª feira, Estacionamento fácil
Wifi, Não fumadores, reserva aconselhada

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OUTRAS OPÇÕES EM VILA REAL
Como alternativas, embora todas mais caras, recomendo o “Cais da Vila” (259 351 209), o “Chaxoila” (259 322 654) ou o “Museu dos Presuntos” (259 326 017).

21.3.15

Mesas de Lisboa



Há dias, um amigo holandês que veio viver para Lisboa, pediu-me uma lista de sugestões de restaurantes para se "iniciar" na capital. As recomendações para estrangeiros não são, necessariamente, as mesmas que faria a um português. Com efeito, há algumas coisas "óbvias" que entendemos que um forasteiro deve conhecer, para poder ter uma perspetiva alargada inicial. Aí vai a lista que lhe mandei, por ordem alfabética:

Avenue (Avenida da Liberdade)

Belcanto (Chiado)

Café de S. Bento (S. Bento)

Café In (Belém)

Cem Maneiras (Bairro Alto)

Casa de Pasto (Cais do Sodré)

De Castro Flores (S. Bento)

Descobre (Belém)

Feitoria (Belém)

Galito (Luz)

Gambrinus (Baixa)

Ibo (Cais do Sodré)

Insólito (Bairro Alto)

Magano (Campo de Ourique)

Ramiro (Martim Moniz)

Salsa & Coentros (Alvalade)

Talho (S. Sebastião da Pedreira)

Tasca da Esquina e Cervejaria da Esquina (Campo de Ourique)

Travessa (Santos)

York House (Santos)

Diversos no Mercado da Ribeira (Cais do Sodré)

 
Posso imaginar que esta listagem não seja consensual. Sendo que aquele meu amigo é empresário, deveria talvez ter colocado o Pabe, o Aviz ou Il Gattopardo, já para não falar do Tavares e do Eleven. Ou o Estórias da Casa da Comida e o Jockey. Algumas coisas mais "lisboetas" e interessantes, como a Horta dos Brunos, o Solar dos Duques, o Poleiro, o Dom Feijão, o Mattos, o Pinóquio ou o Solar dos Presuntos poderiam também integrar a lista. E, claro, a Bica do Sapato e o Sea Me, para "encher o olho"...

18.2.15

O segredo dos restaurantes

Há dias, entrei por curiosidade num recém-aberto restaurante, apenas para dar uma vista de olhos na lista. A especialidade eram "petiscos", essa moda que por aí anda e se aproxima das "tapas" espanholas, ao que parece com o objetivo de captar um público menos dado às refeições longas e mais pronto a aceitar a partilha de pequenos pratos diversificados, num ambiente descontraído. Neste modelo, tenho visto um pouco de tudo: desde coisas inventivas a uma oferta gastronómica sensaborona.
 
O local onde entrei era interiormente agradável. Os clientes eram muito poucos, o que rimava com o olhar ansioso, mas logo desiludido, de quem me recebeu, convencido que eu ia almoçar. Nesse restaurante, a lista era demasiado concentrada num único tipo de carne - o que acho francamente limitativo para fidelizar uma clientela regular. Perceber-se-ia isso uma loja deste tipo no Mercado da Ribeira ou de Campo de Ourique. Mas não se entende a abertura deste espaço numa rua de um bairro lisboeta, já fora do seu centro, com estacionamento "impossível", sem um núcleo próximo de emissão de clientes (empresas, escolas ou outros equipamentos coletivos).
 
Já não é a primeira vez que dou comigo a matutar: por que diabo abriu este restaurante? E logo aqui? Que hipóteses de sobrevivência tem? Olha para os donos, normalmente gente jovem ou de meia idade que decidiu arriscar poupanças, gente que se empenha no trabalho e já se empenhou no banco, e sinto pena. Deve ser um imenso esforço investir numa casa nova, contratar gente, ficar "preso" numa tarefa que se sabe absorvente e que, para ter sucesso, não pode ter falhas e tem de garantir uma clientela regular. Há espaços novos que, à partida, se percebe logo que estão condenados ao insucesso. E ninguém lhes explicou isso? Ninguém lhes disse que aquela lista não "funciona", que aquela oferta gastronómica não traz nada de novo, que aquela zona da cidade ou está saturada ou não tem quem sustente um novo espaço?
 
O sucesso de um restaurante nunca está garantido. Mas, depois de décadas de frequência de milhares de restaurantes, julgo saber o que faz a desgraça de uma casa. E, tal como o outro, já não tenho dúvidas e raramente me engano. Já pensei fazer "assessoria" neste domínio...
 
Falo por Lisboa. Lançar um restaurante implica, essencialmente, ter alguma coisa nova a apresentar. Às vezes é o "conceito", às vezes é o produto, outras vezes é o caráter "trendy" da zona. Mas é sempre preciso que haja um motivo concreto que nos leve, pela primeira vez, a uma casa que abre. Em regra, o boca-a-boca é o fator mais eficaz: "Já foste ao X? É um local muito simpático, com excelente ambiente e come-se lá uma cozinha "de tal sítio" muito boa". Outros vão lá pela moda, pelo "Time Out" ou pelas notas nas revistas, não percebendo que, muitas vezes, há por ali muitas vezes amiguismo, lóbi, cumplicidades que vão dos copos a sítios mais íntimos. Quando não há mesmo mera publicidade travestida de análise crítica favorável.
 
Um fator essencial é o serviço.
 
Há dias, fui jantar a um restaurante aberto já há anos. O local é bom, o mobiliário mudou desde uma "encarnação" mais sofisticada, está agora convertido num rústico sem gosto, toalhas "a armar" ao popular, com candeeiros que "não rimam", sobras da anterior decoração. Quem nos atende não dá um sorriso - o homem e a mulher -, o que transforma a inquirição sobre um ou outro prato numa diálogo seco, desinteressante e desinteressado. Para quem, como nós, entra para jantar num restaurante para um tempo agradável, que investe numa hora e tal de bom ambiente, deparar com dois "morcões" de trombas é a garantia para um resultado garantido: nunca mais lá volto. Ou, como vi um dia um amigo dizer ao proprietário de um restaurante nos arredores do porto, à saida: "Sabe? Vim cá três vezes: a primeira, a única e a última!".
 
Por contraste, estive num restaurante renovado há poucos meses. Entrei e o dono, que não conhecia, surgiu com um sorriso, saudando-nos, dando alternativas de mesa. Depois, deu sugestões de dois ou três pratos recomendados, sem pressões. E, gentilmente, quando me aprestava para encomendar um determinado vinho, perguntou se não queríamos provar o tinto da casa, em jarro, a metade do preço. (O qual, diga-se, era excelente). A meio da refeição, servida por um funcionário atento e delicado, o patrão veio inquirir sobre a nossa satisfação sobre a refeição. Ah! e não nos encheu daqueles pratinhos de entrada que não pedimos e não fez propaganda insuportável dos doces "caseiros". Vou voltar, claro.
 
Como atrás referi, ninguém pode garantir o sucesso de um restaurante. Mas há fatores que "liquidam" uma casa em pouco tempo, Falarei doutros numa diferente ocasião.    

8.2.15

Guia de Campo de Ourique


Come-se bem em Campo de Ourique. Julgo que conheço o essencial da oferta do bairro, mas aceito outras sugestões. 

Mercado de Campo de Ourique

Comecemos pelo Mercado de Campo de Ourique, onde, desde 2014, se juntam propostas gastronómicas e enológicas diversas, numa lógica muito contemporânea, meses mais tarde reproduzida, embora com maior ambição, no Mercado da Ribeira.
   
Como sou um comodista militante, não me agradam as filas nos diversos balcões, a que se segue o carrear das vitualhas para as mesas coletivas. Por isso, o Mercado, que reconheço que tem graça e uma bela animação, não faz parte dos meus destinos habituais, a menos que me apeteça apenas petiscar e beber um copo informal. O excessivo ruído deste ambiente bem solto, que já se tornou "trendy" ao final da tarde, também não vai bem comigo. Mas aconselho a que experimentem.


O Bem Disposto


Saindo da zona do Mercado pela rua Tenente Ferreira Durão, encontramos no nº 52 o "Bem Disposto", (tlf. 213 953 203). Esteve fechado por uns tempos e foi agora amplamente renovado. Tem uma gerência diferente e uma oferta culinária curiosa. Ao que a minha memória gustativa me diz, está bem melhor do que na anterior encarnação. Foi uma bela experiência, que repetirei em breve.


Stop do Bairro


Ainda na mesma rua, no nº 55, situa-se o "Stop do Bairro" (tlf. 213 888 856), que é talvez o restaurante lisboeta que mais me divide de vários amigos: a maioria deles adoram e eu, confesso, acho gastronomicamente banal, incómodo, como um espaço minúsculo. Saio de lá sempre pouco satisfeito. Feitios...

Verde Gaio

Para Norte, numa rua paralela, a Francisco Metrass, em frente ao Mercado, fica no nº 18 o "Verde Gaio" (tlf. 213 969 579). Sempre lá comi bem. Os grelhados são muito bons.

Parreira do Minho

Ainda na rua Francisco Metrass, no nº 47, fica a "Parreira do Minho" (tlf. 213 969 028), um espaço bem mais modesto, o que se reflete também nos preços do menu, cuja variedade não é muita mas onde se encontram alguns pratos interessantes. Quando posso, passo por lá para uma divertida tertúlia semanal.


Europa


Escassos metros adiante, no nº 57 da Francisco Metrass, está o "Europa" (tlf. 213 968 902). Foi renovado desde há meses e está hoje muito melhor, com uma oferta bem mais simpática e cuidada do que no passado, apoiada num serviço muito atento.


O Comilão

E continuemos noutra rua paralela, ainda mais a Norte, a rua Tomás da Anunciação. Se iniciarmos o percurso a partir da rua Saraiva de Carvalho, encontrar-se-á, logo no nº 5A, "O Comilão". É um restaurante tradicional de bairro, sem "peneiras", com serviço atento e uma oferta gastronómica simples. Olhem-se as fotografias em uma das paredes para perceber por que está sempre cheio de políticos de um certo partido. Desde há muitos anos que passo por lá, mas sou uma "avis rara" face à orientação dominante na clientela política...

 Pimenta Rosa


Um pouco adiante, aberto creio que em 2013, está, no nº 9B, o "Pimenta Rosa" (tlf. 213 904 621), com outras pretensões e, naturalmente, com preços diferentes. O ambiente é muito agradável e a cozinha imaginativa, embora sem deslumbrar.


O Magano


Continuando pela Tomás d'Anunciação na direção ao Jardim da Parada, do outro lado da rua, no nº 52, está aquele que considero um dos melhores restaurantes do bairro, o alentejano "O Magano". Não é barato, mas tem uma constância na qualidade que até me faz aturar alguma espera que, por vezes, é necessária para obter mesa, mesmo reservando. Por isso, evite as noites de fim de semana.

O Tachinho

Passemos a outra paralela para Norte, a rua 4 de Infantaria, que também bordeja o Jardim da Parada. No nº 6 E, fica "O Tachinho" (213 962 684). Nos anos 90, parei por lá com frequência. Regresssou numa nova encarnação. Sempre por ali se comeu bem e, pelas duas experiências que tive, a nova gerência parece estar a tentar colocar-se à altura das belas experiências do passado. Tem agora uma esplanada, feiosa mas agradável para um almoço leve no tempo bom.

Moules & Beer

Caminhando para o outro lado do Jardim da Parada, no nº 29D da 4 de Infantaria, fica o interessante "Moules & Beer" (tlf. 213 860 046), um local relativamente novo, com gente nova, onde o prato principal e de referência, como o nome da casa indica, são os mexilhões. Uma casa diferente e interessante, neste bairro clássico. O serviço é um tanto errático e a escolha de vinhos limitada, mas as cervejas são "the name of the game".

Cataplana & Companhia


Prossigamos para Norte, até outra rua paralela, um dos eixos principais de Campo de Ourique, a rua Ferreira Borges. Logo no seu início, no nº 193, desta vez para quem parte d a zona das Amoreiras, encontramos o tradicional "Cataplana & Companhia" (tlf. 213 865 269), que já se chamou "Tico-Tico". É um restaurante de famílias do bairro, com uma vasta oferta e um preço razoável. O ambiente é de velho restaurante lisboeta, com serviço simpático, informal.

Café Canas

Saltando agora para o outro extremo da rua, no cruzamento mais importante do bairro, onde a rua Ferreira Borges se encontra com a rua Saraiva de Carvalho, encontramos no nº 145, o "Café Canas" (tlf. 213 920 590), que por ali conheço desde os anos 60. Já foi um restaurante com algum nome em Lisboa. É hoje apenas um café e cervejaria, sem surpresas, sem requintes, onde, sem grandes expetativas, se pode fazer uma refeição razoável, por um preço simpático.

Tasca da Esquina

Por detrás do "Canas", na esquina da rua do Patrocínio (que saudades da "Tasquinha da Adelaide" que por essa rua houve!) no início da descida para a Estrela, no nº 41 da rua Domingos Sequeira, fica a já famosa "Tasca da Esquina" (tlf. 919 837 255) . Ocupa um lugar onde houve um Correio e é hoje um espaço ainda bastante na moda, onde o chefe Vitor Sobral (que nunca por lá encontrei, confesso!) nos propõe alguns pratos interessantes, num ambiente agradável e descontraído, com serviço muito simpático. Reserve sempre.

Trempe

Mudemos a geometria de abordagem. Passemos às ruas perpendiculares. E comecemos pela rua Coelho da Rocha (por lá houve dois bons clássicos, desaparecidos na sua versão original, o "Coelho da Rocha" e a "Charcuteria"). De Norte para Sul, encontramos, logo à saída da rua Silva Carvalho, no nº 11 da Coelho da Rocha, o "Trempe" (213 909 118). Sem ser de grande ambição gastronómica, sempre por lá tive boas experiências, num estilo de comida portuguesa tradicional. 

Flagrante Delitro


Do outro lado da rua, na Casa Fernando Pessoa, no nº 18, fica o restaurante "Flagrante Delitro" (tlf. 213950704), com uma lista curta mas com graça, para uma refeição simples, num espaço interessante que, no Verão, se abre para um agradável pátio exterior.

 Solar dos Duques


A outra rua paralela imediata é a Almeida e Sousa. Quase a chegar ao extremo sul da rua, no nº 58, fica o "Solar dos Duques" (tlf. 213 872 674), em bom restaurante de cozinha tradicional portuguesa, que sempre recomendo. Espaço simples, às vezes um pouco barulhento mas com ambiente agradável e serviço atento. Não se esqueça de reservar.

Cervejaria da Esquina


Na paralela seguinte, a rua Infantaria 16, nada tenho a recomendar. O que não é o caso da rua imediata, a Correia Teles, onde, no nº 56, fica a "Cervejaria da Esquina" (tlf 213 874 644), do mesmo proprietário e chefe da já referida "Tasca da Esquina". Um pouco mais cara do que esta, mas também mais sofisticada nas propostas, a Cervejaria da Esquina é um dos locais interessantes do bairro, embora o serviço "cool" não me entusiasme muito e, claro, o preço me faça ser cliente mais raro. Mas reconheço a sua qualidade, no género. Reserve sempre, em especial aos fins de semana.

E pronto, aqui ficam quase duas dezenas de sugestões desse belo bairro de Campo de Ourique. Atenta a dificuldade de estacionar na zona, recomenda-se o parque subterrâneo junto à Igreja de Santo Condestável e ao Mercado.

16.1.15

Restaurantes do Minho



                                                                                                             (atualização Janeiro de 2015)

Aqui deixo o meu guia pessoal de restaurantes do Minho.

Começo por três nomes que se impõem pela sua qualidade, de que adiante se falará mais: o São Gião, em Moreira de Cónegos, na minha opinião um dois melhores restaurantes do país; o Arcoense, em Braga, com uma constância de qualidade dificilmente superável; e o Ferrugem, perto de Famalicão, uma das grandes novidades dos últimos anos. 

Desçamos então o Minho, de Melgaço até à Póvoa de Varzim.

Logo em Melgaço, ir ao Panorama, sobre o mercado, é uma excelente opção, como o é a magnífica Adega do Sossego, no lugar do Peso.

Lamento dizer que ainda me não senti tentado a parar em Monção (embora me digam que devo experimentar o Galiza Mail'o Minho e o Sete à Sete), nem em Valença (onde o outrora interessante Monte do Faro, com caça, desapareceu).

Perto de Valença, falam-me muito bem da Quinta do Prazo, que ainda não conheço.

Já em Caminha, uma opção simpática é o Duque de Caminha, na velha rua Direita. Mas longe vão os tempos do bacalhau do Chico, na estrada velha para o Moledo, ou do requinte do Napoléon, ainda antes da ponte, do lado de Seixas. Já para não falar da saudade imensa da classissíma Pensão Rio Coura, para os lados da estação. Na cidade, contudo há duas ou três novas propostas de restauração que tenho de verificar ainda.

Uns poucos quilómetros depois, pode ir, com toda a segurança, ao Ancoradouro, no Moledo, com grandes grelhados, de peixe e carne. O Alfredo dir-lhe-á o que há de melhor, na ementa escassa mas excelente.

Logo se seguida, em Vila Praia de Âncora, a Tasca do Ibrahim dá-lhe um bom peixe. Bem perto, o mais despretensioso Coral, do sorridente José, tem também algum marisco e boas outras coisas do mar.

Continuo - culpa minha! - sem ir há uns tempos ao Dona Belinha, no Hotel Meira, esperando que possa estar à altura da restauração de qualidade a que este clássico hotel de Âncora nos habituou.

A caminho de Viana, tem um pouso forte e seguro na Mariana, em Afife, com peixe sempre de qualidade.

Viana do Castelo nunca foi uma "meca" gastronómica, salvo no tempo (há muito ido) do bacalhau da Margarida da Praça e dos mariscos da Zefa Carqueja (cuja reedição recente, noutro registo de oferta, me não convenceu). Longe vai também a graça estival do Raio Verde e a novidade que foi o Luziamar, ambos no Cabedelo. Em tempos, comeu-se bem no Viana-Mar, como também aconteceu no início do Alambique (já fechado), que tem a mesma origem. O restaurante da excelente estalagem Melo e Alvim, que tinha boa qualidade, fechou, entretanto - e é pena! Teve o seu tempo o Cozinha das Malheiras, que também se foi. Mas eu tenho grandes saudades da Pensão Freitas, do Sport e, nos anos logo após a sua abertura, do Costa Verde.

Onde se come em Viana, nos dias de hoje?

Para um menu tradicional, num ambiente simpático e com um serviço familiar, recomendo o Laranjeira, junto à avenida principal da cidade, sob a batuta do meu amigo José Laranjeira. É, de há décadas, o meu poiso mais frequente na cidade.

Na zona portuária, junto ao castelo, procure-se a Tasquinha da Linda, com excelente peixe e marisco, uma das novidades positivas da gastronomia vianense. Com um ótimo serviço e a simpatia da Linda.

O Maria de Perre, junto à avenida central, é uma opção simpática e apresenta uma cozinha estável.

A dois passos, o Casa de Armas, com outras pretensões, é um lugar onde já comi bastante bem mas também de onde já saí menos satisfeito. Mas continuo a dar-lhe o benefício da dúvida, porque é uma casa que foi responsável por um salto de qualidade na gastronomia da cidade.

Na zona nova em frente à nova biblioteca, testei há tempos O Manel, versão moderna de uma casa que conheci ali por perto. Sem desiludir, necessito ainda de ser convencido.

Uma nota de memória para a Tasca do Valentim, agora só tem o espaço especializado em grelhados, no Campo da Senhora da Agonia.

Num registo acentuadamente turístico, o Três Potes cumpre a sua função, que é extensiva ao Santoínho, na saída de Darque para o Porto, pela estrada antiga.

E resta uma nota para o restaurante da Pousada de Santa Luzia, no alto do monte com o mesmo nome, para dizer que, não obstante um serviço atento e muito simpático, apresenta uma relação qualidade/preço pouco favorável.

Fora da urbe, a caminho de Ponte de Lima, aconselho o Camelo, em Santa Marta de Portuzelo.

Mais para sul, abaixo de Esposende, encontrará uma expressão marítima deste último restaurante, no Camelo da Apúlia, mas a última vez que por lá passei saí um pouco desiludido.

Num ambiente curioso de velha pensão, a Rita Fangueira, em Fão, continua, há muitos anos, a ser uma opção curiosa, mas já lá não vou há tempos.

À entrada da Póvoa de Varzim, uma espécie (agora) renovada de barco acolhe o sempre excelente Marinheiro, onde nunca tive uma má experiência.

Dentro do casino na cidade, com sofisticação, come-se muito bem no Egoísta. Caro, claro.

Se quiser ia a Vila do Conde, encontrará um bom poiso no nunca desmerecido Ramón (mas será que ainda estamos no Minho?).

Vamos agora avançar para o interior.

A caminho de Barcelos, na Pedra Furada, a Maria é um clássico sempre seguro e interessante, com uma garrafeira notável.

O mesmo se diga para a Bagoeira, no centro de Barcelos, onde só não aconselho visitas nos movimentados fins-de-semana de verão.

Um pouco mais a sul, perto de Santo Tirso, vale a pena passar por Rebordões e visitar o Cá-te-espero, com comida simples, mas de grande qualidade.

Seguindo para Vila Nova de Famalicão, uma terra ainda não refeita da saudade do Íris, não se sai totalmente desencantado do histórico Tanoeiro ou, num registo bem mais popular, à vizinha Sara Barracoa.

Mas, se quiser sair um pouco da urbe, terá uma magnífica experiência no Ferrugem. Trata-se de um local de grande qualidade, com uma cozinha inventiva. O serviço é excelente. Dalila e Renato Cunha criaram um belo espeço com alta qualidade a condizer. Telefone antes a perguntar como lá chegar, porque, sem GPS, não é fácil.

Guimarães deu um merecido "salto" com a Capital da Cultura, aventura em que por lá andei com alguma frequência. Ficam saudades do histórico Jordão e do estimável Virabar, dois locais que marcaram a cidade, por anos.

Dessas visitas, ficaram-me na (boa) memória algumas visitas ao renovado Oriental, onde sempre tive boas experiências.

De igual modo, comi muito bem no Novo Restaurante Nora do Zé da Curva. Convém notar que o Antigo Nora do Zé da Curva é ainda uma opção agradável.

Com a segurança de uma cozinha tradicional, regressei com gosto ao clássico Florêncio, em S. Torquato.

Tive já uma experiência bastante aceitável no moderno PapaBoa, perto da universidade, sendo que o seu prolongamento no Histórico, tendo muita graça como espaço, parece-me ficar aquém na exigência culinária, talvez produto da pressão turística.

Opção atual é ainda o Café Concerto Vila Flor (uma agradável surpresa, no centro cultural com o mesmo nome).

Mas, voltando ao início deste post, se está por estas bandas, lembre-se do início deste texto e aproveite para ir ao S. Gião - como disse, um dos grandes restaurantes portugueses, situado em Moreira de Cónegos, junto ao estádio do Moreirense, sem grandes anúncios exteriores., porque não precisa... Não conhecer esta "catedral" oficiada por Pedro Nunes é imperdoável.

E chegamos a Braga, onde as coisas mudaram muito, desde o tempo dos desaparecidos e saudosos Narcisa e Abade de Priscos e onde o Sameiro já viveu melhores dias.

O Arcoense é, a meu ver, o grande "must" da cidade. Voltei lá recentemente e está esplendoroso na gastronomia, servido por uma nova decoração.

Num registo também muito seguro, desde há muito, o Expositor do Migaitas oferece um serviço excelente.

A grande descoberta que, entretanto, fiz foi o Flor de Sal, um pouco fora do centro, onde tive uma excelente refeição.

O Inácio e o Cruz Sobral continuam a ser dois clássicos de confiança, sendo que O Alexandre também não desmerece.  Falaram-me também bem da Casa da Artes, mas ainda por lá não passei.

Em Ponte de Lima, uma bela vila que teima em não querer ser cidade, a escolha é grande.

Descubra, nos arredores (porque dá algum trabalho, no caminho para a Madalena), o extraordinário Bocados, um magnífico modelo de cozinha, ao mesmo tempo tradicional e inventiva, onde sempre comi muito bem.

Pode-se também ir, à confiança, à Carvalheira, em Arcozelo (do outro lado da ponte).

Num edifício novo, o belo Açude, sobre o rio, não desilude.

Para o sarrabulho, tem sempre os dois vizinhos concorrentes: o Manuel Padeiro e a Encanada.

A Tulha também é uma boa experiência. Mas, por ali, eu ainda tenho saudades das portas de vai-e-vem da Clara Penha (quem se lembra?) e dos outros tempos do Gaio.

Que resta ainda do Minho?

Quem vai na estrada de Braga em direção a Chaves, no lado contrário a Póvoa do Lanhoso, encontrará o Victor, em S. João do Rei, com o seu famoso bacalhau.

Mais a ocidente, na estrada que sai de Amares (onde o Milho Rei já teve o seu tempo) para o Gerês (localidade onde não se come!), é famoso o restaurante da Pousada, em Santa Maria do Bouro, com a sua mesa de doçarias (perto, havia o velho e imenso Abadia, mas perdi-lhe o rasto, há uns bons anos).

Um pouco mais longe, em Terras de Bouro, o Abocanhado é uma excelente opção gastronómica, além de um cenário deslumbrante.

O Torres, numa periferia de Vila Verde, é uma opção sempre interessante.

Lembro ainda o Conselheiro, em Paredes de Coura, onde já se comeu muito bem na clássica Miquelina já está longe de ser o que era.

Em Ponte da Barca, as minhas experiências nos últimos anos não foram as melhores (O Moínho foi uma desilusão), pelo que abalo sempre, quilómetros acima, para os Arcos de Valdevez, onde o Grill Costa do Vez, que conheço há décadas, é uma boa opção, desde que fora do período de férias e festas.

Em direção ao norte, no Soajo, o Espigueiro costuma ser de confiança, mas já lá não passo há alguns anos. 

É tudo quanto a minha experiência de restauração no Minho me leva a notar, complementado por apontamentos de "informadores". Não excluo que possa estar a ser injusto para algumas casas, por omissão, exigência ou mero arbítrio. Mas este é o risco de quem ousa ter opiniões.

12.1.15

Restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro


(Revisão Janeiro 2015)

Falemos dos restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro.
 
Se se entrar em Trás-os-Montes pelo Porto, pode-se sempre parar, já depois de Amarante, no Marão, em direção a Vila Real, pouco antes do Alto de Espinho, na Pousada de S. Gonçalo, agora lamentavelmente reduzida a um "franchising", pelas Pousadas de Portugal. O nível da cozinha já não é o mesmo de antigamente, mas ainda é uma opção possível. Mas Vila Real está a menos de 20 quilómetros...

Já perto de Vila Real, e se quiser uma experiência "radical", em termos de mergulho numa comida muito popular, pode procurar-se, fora do IP4, a Toca do Lobo, em Parada de Cunhos, na estrada antiga, voltando em direção ao Porto. Atenção: oferta restrita e muita simplicidade.

Vila Real, as coisas mudaram muito. Com o velho Espadeiro a já não honrar outros tempos e depois da desaparição dos excelentes Barriguinha Cheia e Vilalva (um abraço, João Rodrigues), a cidade tem hoje poucos pontos altos.

Sem a menor dúvida, o Cais da Villa, junto da estação de caminhos de ferro, é a melhor opção atual no burgo, se bem que com preços que me parecem ligeiramente exagerados. Verifiquei que a qualidade não baixou e tem uma carta de vinhos excecionalmente boa.

Seguindo pelo velho circuito, pode ir-se com confiança ao Paulo, no meio do bairro de Araucária, uma casa já clássica, com ambiente simples e comida segura (peça ao Paulo a "reca d'Aleu" da casa).

Ali perto, o Grill O Costa não me convenceu, em três visitas, na comida e especialmente no serviço, "seco" e desinteressado. Mas o facto de um credenciado crítico, como é Virgílio Gomes, me ter transmitido uma opinião oposta à minha leva-me a manter o benefício da dúvida a este restaurante.

Depois do desvio para Mateus, em Abambres, encontrar-se-á o Maria do Carmo, uma casa tradicional, que se destaca por uma grande constância e pratos abundantes (e alguma barulheira...).

Em frente, sem deslumbrar, come-se relativamente bem no Viúva, casa que conheci por indicação de um antigo ministro dos Negócios estrangeiros que, também na avaliação gastronómica, merece respeito.

Um pouco mais abaixo, numa rotunda, está o Mateus, com uma sala acolhedora e um serviço simpático.

Na parte alta da cidade, perto da igreja da Nossa Senhora da Conceição, pode-se ir com toda a segurança ao Museu dos Presuntos, onde o meu amigo Teófilo Silva apresenta produtos de excelência, da zona de Montalegre, com uma imbatível escolha de vinhos do Douro.

Na cidade, não se fica nem desapontado nem deslumbrado no Terra de Montanha.

Também perto de Mateus, no Quinta do Paço, em Arroios, há uma mesa simpática, com um espaço interessante de hotelaria rural.

À saída norte da cidade, na rotunda antes de entrar na estrada antiga para Chaves, muito próximo da IP4, encontra-se o seguro Lameirão, dirigido pelo Eleutério e pela Alice, com pratos locais simples, variando diariamente, de boa qualidade e a preços bem moderados. Sou um cliente assíduo, quando vou a Vila Real.

Logo adiante, o Chaxoila, no enésimo renascimento de um restaurante histórico, como instalações renovadas (mas sempre com a velha e agradável ramada exterior) e uma restauração bastante recomendável, sob a batuta do simpático José Carlos. No verão, é um must, mas os preços não são baixos.

Infelizmente, não encontro muitas razões gastronómicas para parar em Vila Pouca de Aguiar. Mas o restaurante do Hotel Aguiar da Pena deu-me agora um motivo para aí parar. Já o fiz duas vezes e não me arrependi.

Nas Pedras Salgadas, visita-se o Conde, junto à antiga estação. Nele, o Francisco apresenta uma cozinha honesta, sem gongorismos e a preços (relativamente) moderados.

Segue-se depois para Vidago: o restaurante de alta gama, no belo e renovado Hotel Palace - que é obrigatório visitar! -, está agora sob a direção do chefe Rui Paula (do DOC na Folgosa e do DOP no Porto) e deu um salto considerável de qualidade, com a relação qualidade-preço a melhorar, face aos primeiros tempos da reabertura do hotel. 

A restauração de Chaves tem um historial interessante: recordemos o Cinco Chaves, o restaurante do Trajano, o Comercial, o Aurora, os bons tempos do Retornado e o período áureo do Leonel.

Hoje, porém, as coisas são diferentes. O Carvalho, com a cozinha da dona Ilda, impõe-se como a principal referência gastronómica da cidade, no Tabolado, junto às termas. Imbatível, até agora.

Não nos devemos esquecer também, para uma comida regional sólida e segura, da Talha, do João Monteiro, a seguir ao quartel, no caminho para a A24. Variedade, qualidade e simpatia, num ambiente clássico de restaurante de província.

Para uma oferta tradicional, a preços razoáveis, há sempre o histórico Aprígio, do nome do proprietário, embora difícil de encontrar.

Muito mais fácil de localizar é a Adega Faustino, no centro da cidade, com os seus clássicos tonéis, um lugar um pouco incómodo para se comer, mas muito típico e agradável.

E convém não esquecer, perto do aeroporto, o muito recomendável Canjirão, com uma lista de qualidade e preços muito confortáveis.

Não tenho notícias recentes do restaurante do Hotel Forte de S. Francisco, que oferecia uma gastronomia interessante, quando por lá preponderava na gestão o meu amigo António Ramos.

A ocidente, de Boticas não tenho notícias, depois da desaparição, já há muito, do Santa Cruz (ah! aquelas trutas lardeadas com presunto!).

Se for só para ir lá comer, creio que não vale a pena ir a Montalegre, mas, se se tiver de passar por lá (e Montalegre deu um "salto" interessante como cidade), o Nevada parece ser a escolha certa

Pela estrada em direção ao Gerês, há, nos Pisões, o Sol e Chuva, uma opção de recurso.  

Mas voltemos um pouco a sul. Entrando na região pela Régua, logo em Lamego (que é Beira Alta, eu sei!) pode-se ir, à confiança, a um clássico muito simples, junto à Sé, a Casa Filipe. Há tempos, ainda em Lamego, visitei o novo Valdouro, um investimento louvável e ambicioso, também próximo da Sé, onde comi bastante bem.

Ainda antes de chegar a Régua, recomendo, muito vivamente, uma desvio de alguns quilómetros, na estrada para o Pinhão, para uma ida ao DOC, na Folgosa. Não é barato, mas é sempre muito bom, como há dias testei (a varanda, sobre o Douro, com os menus a terem de ser iluminados por pilhas, é soberba numa noite de verão). A cozinha inventiva do Rui Paula (que vem do Cepa Torta, de que já falaremos, e que, como já referi, hoje se prolonga no DOP, no Porto, e no Hotel Vidago-Palace) é uma das grandes conquistas da restauração nortenha (e, eu diria, nacional!).

Um pouco adiante, no proprio Pinhão, há o restaurante da Vintage House, com preços "estrangeiros" e lista, para mim, demasiado convencional.

Chegados à Régua, podemos ir, à confiança, ao Castas e Pratos, nos armazéns da estação (que inspirou o Cais da Villa, em Vila Real).

O Douro In, num primeiro andar junto ao rio, tem nova gerência. Regresse lá e comi bem. Um serviço muito profissional.

Fora da cidade, há duas opções: o Varanda da Régua, em Loureiro, com uma vista soberba e um bacalhau e cabrito já consagrados e, neste caso reservando e tendo paciência para aturar o ar grave do dono, a Repentina, em Poiares, com um cabrito já lendário.

Mudemos de ares. Lá mais para cima no mapa, descobri, em Valpaços, o Boa Cepa, que me pareceu um esforço louvável, mas o facto de ser domingo tornou a refeição "atípica", pela enchente.

Embora a gerência tenha mudado, dizem-me que se continua a poder ir, em Alijó, ao Cepa Torta, onde "nasceu" o Rui Paula, de quem já falei.

No caminho para Bragança, em Macedo de Cavaleiros, tendo deixado de ser opção esse pouso clássico que era a "defunta" Estalagem do Caçador, falam-me agora bem do Brasa, mas não conheço ainda.

No caminho de Macedo para Mogadouro (estrada muito complicada, aviso!), pode visitar-se o histórico Saldanha, em Peredo, onde o João Saldanha é mestre há quase meio século.

Em Mirandela, a grande novidade nos últimos anos é o excelente Flor de Sal, onde o azeite é rei e senhor.

Há por lá também uma cozinha sempre sólida, mas não muito inventiva, no Grês.

Já há muito que não vou ao Maria Rita, no Romeu, um espaço rural inesquecível onde sempre se comeu razoavelmente bem, fugindo das enchentes de fim de semana.

Chegados a Bragança, temos várias opções.

O restaurante da Pousada, o G, está transformado no must da cidade. Gerida agora pelos proprietários do Geadas (ver abaixo), a Pousada está modificada e melhorada, depois de uma gestão do Pestana que a deixou num estado menos próprio.

O Solar Bragançano é um pouso seguro, com bons produtos e uma bela história a honrar. Outra excelente opção é, desde há vários anos, o Geadas. 

A oriente de Bragança, em Gimonde, uma recente ida ao Dom Roberto deixou-me uma impressão menos boa das que trouxera de outras ocasiões (mas um dia não são dias). Ainda nessa aldeia, o Quatro foi, no passado, uma alternativa à altura, mas terei de confirmar. O mesmo se passa com o Abel, logo ao lado, de cuja posta me dizem maravilhas.

Mais adiante, em Miranda do Douro, vai-se à Balbina, mas dizem-me haver coisas novas por lá. Se se preferir andar uns quilómetros mais, pode provar-se a mais histórica das postas mirandesas, em Sendim, na Gabriela.

Ainda um pouco mais adiante, a Lareira, em Mogadouro, é "o" lugar da cidade (e o novo IC5 é um acesso fantástico para a região).

Um pouco mais para o sul, recomenda-se o já clássico Artur, em Carviçais (que pode ter crescido um pouco demais) e falam-me bem do Lagar, em Torre de Moncorvo, que ainda não experimentei.

E, relativamente perto, cada vez me referem mais o Lameirinhos, em Cabanas de Baixo. Também lá irei, um dia.

E aqui fica uma peregrinação básica por algumas mesas transmontanas. Uma escolha pessoal e com base em informações que reputo como fidedignas. Mas a responsabilidade final da seleção é minha, claro!

21.12.14

Que batatas são estas?!


Dois restaurantes de qualidade em Vila Real, duas más experiências com batatas pequenas "a murro": farinhentas, sem consistência, com sabor adocicado. Que se passa? Parece que não sou o primeiro a queixar-me e que a fornecedora é a mesma. Atenção agora às batatas para acompanhar o bacalhau cozido na noite de Consoada! Já recomendei uma ida ao Pingo Doce...

5.12.14

Prémio "Maria de Lourdes Modesto"

Hoje, a Academia Portuguesa de Gastronomia, presidida por José Bento dos Santos e da qual faço parte, procedeu, no Grémio Literário, à entrega anual dos seus prémios. Com um almoço, naturalmente.
 
Dentre eles, quero destacar o prémio "Maria de Lourdes Modesto", destinado a premiar, "a título excecional", "um restaurante de cozinha tradicional portuguesa de grande qualidade". A distinção, cujo merecimento pessoalmente reitero, foi para o transmontano "Geadas", um excelente restaurante da cidade de Bragança.
 
Na ocasião, tive o gosto de conhecer a patrona do prémio, Maria de Lourdes Modesto. Para além de fazer parte da memória televisiva da minha geração, a ela se deve uma cuidadosa recolha de receituário culinário português que muito tem contribuído para a fixação desse nosso património cultural.

28.9.14

O Funil

"O Funil" foi, por muitos anos, um restaurante clássico, sólido, numa zona pouco pródiga a bons exemplos gastronómicos como é a da avenida 5 de outubro, no topo junto ao Saldanha.

Da época da criação de "O Funil", do início dos anos 70, creio que resta apenas "A Colina", na rua Filipe Folque, junto à avenida Duque de Ávila (onde continua a comer-se bem, agora com um agradável andar superior) e, um pouco mais longe, na avenida Conde Valbom, a "Laurentina" do bacalhau. Isto, claro, se não contarmos com a vizinha avenida da República, onde ainda subsiste, com garbo e graça, a "Versailles" e, do outro lado, esse monumento à nostalgia que ainda é o "Galeto" (creio que o único restaurante onde os preços sobem depois das 22 horas). Quase tudo o que de interessante houve por ali por perto, foi desaparecendo, desde o clássico "Toni dos Bifes" ao excelente "5 do 10", já para não falar do dueto maravilha que eram o "Monumental" e o "Montecarlo".

Voltemos a "O Funil". Há uns anos, tinha passado por lá, subi a escada ao andar superior e encontrei uma casa preservada, mas sem nenhuma graça especial, salvo o facto de ser ainda então, como sempre foi (e como "A Colina" ainda é), um restaurante de famílias, nos fins de semana. Ontem, deu-me para ir por lá de novo. E, devo dizer, tive uma surpresa muito agradável.

No aspeto, "O Funil" mudou imenso. Reabriu em agosto. É agora no rés-do-chão, num espaço moderno, muito bem decorado. A lista tem um bom equilíbrio, com sete entradas, oito pratos de carne e outros tantos de peixe, basicamente assente na cozinha portuguesa tradicional. Provaram-se umas ótimas entradas de alheira, umas lulas à algarvia com arroz de alho (tenríssimas!) e um excelente ensopado de borrego, no tacho, como mandam as regras. Para uma outra vez, iremos fazer outras "visitas" à lista, tentando alguns "clássicos" (arroz de tamboril e camarão, bacalhau à Braz, as carnes de porco à alentejana e à portuguesa, o arroz de pato à antiga e o cordeiro de leite). Se a qualidade acompanhar o que ontem provámos, o sucesso da casa está garantido. Ah! e nas sobremesas, provámos dois doces estupendos, dentro doçaria portuguesa tradicional. À lista de vinhos, com preços muito razoáveis, fazem falta alguns rótulos mais conhecidos, nomeadamente do Douro e Alentejo, mas o vinho recomendado pela casa era excelente. O preço final foi muito razoável. Ao almoço, segundo nos informaram, há um menu especial, com valores em conta.

O serviço foi atentíssimo, conhecedor e diligente. Só se pode esperar que tudo assim se mantenha. "O Funil", num registo estético muito diverso da velha casa tradicional, soube conservar a sua fidelidade à culinária portuguesa, modernizando-a sem a descaraterizar. É uma ótima opção, numa área onde não há muitas. E onde, à noite, é ainda possível encontrar lugar para estacionar. Experimentem! Mas não vá lá hoje, domingo, porque é o dia que fecha.

"O Funil", avenida Elias Garcia, nº 82, Lisboa, tel. 217966007