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Este blogue não tem a pretensão de ser um espaço de crítica gastronómica, atividade para a qual o seu autor não se sente qualificado. Nele apenas ficam registadas meras impressões pessoais, sempre subjetivas e em nalguns casos eventualmente injustas, de alguém que se dispõe a partilhar a opinião que formou em visitas a alguns restaurantes. Quem lê os textos aqui inseridos deve, assim, ter sempre presente esta assumida limitação de propósitos. Bom apetite!

6.3.14

Paris à mesa

Há pouco, um amigo telefonou-me a pedir o nome de alguns restaurantes recomendáveis em Paris, para onde parte amanhã, em visita turística. Foi nesse instante que me recordei de que, há um ano, publiquei na revista "Epicur", que inseria uma entrevista comigo, um texto que me pareceu adequado enviar-lhe. O artigo chamava-se, significativamente, "L'embarras du choix" e queria assim significar a dificuldade em fazer uma escolha num universo de restaurantes como aquele que Paris tem.

Dei-me agora conta que este blogue, onde deixo algumas notas sobre restaurantes, deveria ter acolhido esse texto (que, recordo, tem já um ano). Ele aqui fica:

Os franceses têm uma expressão sonora para designar a dificuldade na seleção de uma opção: “l’embarras du choix”. Numa cidade como Paris, a escolha de um restaurante adequa-se bem a essa fórmula. A liberdade que me foi dada pela Epicur, para designar uma mesa parisiense da minha preferência, onde nos pudessemos juntar à conversa solta, confrontou-me com esse agradável dilema. E, de caminho, fez-me refletir sobre outras coisas mais.

Com Nova Iorque e Londres, ambas hoje ameaçadas de perto por São Paulo, Paris é dos lugares do mundo onde a multiplicidade de opções gastronómicas é mais rica, nomeadamente naquilo que alguns designam, às vezes ironicamente, por cozinhas “étnicas”. Porém, ao contrário dessas outras cidades, que vivem essencialmente da diversidade e do cosmopolitismo que lhe está associado, a capital francesa tem ainda o orgulho de ser a sede incontestada de uma gastronomia nacional que ganhou foros lendários no imaginário global. Nesse domínio, encontra-se em Paris um pouco de tudo: desde a “haute cuisine” de autor, presente em locais consagrados da restauração, até a uma imensidão de “bistrots” e “brasseries”, passando por uma alguma gastronomia de “terroir”, marcada por um afirmado e orgulhoso cariz regional. Muitas dessas mesas de restauração “franco-francesa” cultivam, aliás, uma espécie de snobismo imobilista, que os habitantes locais parecem apreciar – não fosse a França, aos meus olhos, um dos países mais conservadores do mundo.

Como olha um embaixador os restaurantes do país onde está acreditado? É dado por adquirido que os diplomatas são os felizes usufrutuários de uma vida recheada de prazeres – no mínimo, os prazeres da mesa... É uma guerra perdida tentar lutar contra a ideia feita de que a diplomacia é uma espécie de festa culinária permanente, um saltitar entre cocktails e ágapes bem regados, consumidos entre ditos espirituosos e conversas ocas, exercícios de rebuscada elegância e muito dandysmo, para tragédia do erário e irritação dos “gaspares” que o policiam. Num misto de inveja e pequena raiva, a imagem colou-se-nos à pele, para sempre, sendo impossível vender uma explicação serena sobre o que, na realidade, nos compete fazer. Valha a verdade que alguns, dentre nós, sempre ajudaram a essa “festa”, num culto hedonista feito de um engravatado vazio de ideias e de um deslumbrado frenesim pela “Caras” e outras feirantes vaidades, onde confundem com importância o mero “upgrading” social que a sua conjuntural função acarreta. E uns pagam pelos outros.

A vida diplomática não é nada disso, embora tenha uma irrecusável componente social, que só os patetas desprezam, embora apenas os tontos magnifiquem. Com os anos, aprendi que o êxito de uma representação diplomática, com algum sucesso, consiste em conseguir suportar, com estoicismo e bom fígado, o inevitável frenesim social de certos períodos, embora sem disso “fazer vida”. Aqui entre nós, devo dizer que, ao longo dos anos, fui-me progressivamente reconvertendo à figura de um discreto “fugitivo” social, fazendos os “mínimos” neste domínio, sem nunca me deixar absorver pela “espuma dos dias” da vertigem diplomática. Mas os cocktails, os almoços (e os sinistros pequenos almoços!) de trabalho, os “dinners en ville” e os convites para “o campo”, tudo isso faz parte de um cardápio de obrigações a que um diplomata – e, por maioria de razão, um embaixador – se não pode nem deve furtar, por completo. É preciso ter sempre presente, porque às vezes isso é esquecido, que a grande maioria dos convites que recebemos é feita num registo de grande simpatia, por gente educada e respeitável, a cujo gesto é deselegante não corresponder. E que, nesse mundo de sociabilidade organizada, acabamos por conhecer muitas pessoas que se tornam úteis para os nossos interesses profissionais, ao mesmo tempo que alimentamos um círculo de relações que tem como agradável ponto comum o facto de apreciarem o país que representamos. O que, no nosso caso particular, é muito importante, em especial nos tempos em que Portugal não anda propriamente nos patamares da glória.

Mas voltemos aos restaurantes de Paris, porque é isso que hoje aqui nos motiva a escrita. Foi-me dito pela Epicur que escolhesse um lugar de que eu gostasse. Coisa difícil. Ao longo destes anos de Paris, e já antes de aqui viver, tenho conhecido muitos restaurantes por esta cidade, de todo o tipo e de toda a qualidade. Devo confessar que muitos dentre eles só visitei porque alguém, simpaticamente, antecipadamente se dispôs a pagar a fatura. Contrariamente ao que se julga, o salário dos diplomatas, não dando razões de queixa, não dá para grandes aventuras. Na maioria dos casos, retribuí esses convites na minha própria casa, da forma como entendo e sei receber os amigos e os conhecidos. E não me tenho dado mal com o sistema.

Por essa razão, porque desde muito cedo entendi que, pelos “cabedais” financeiros de que dispunha, nunca iria ser visitante habitual de alguns grandes nomes da restauração, desisti, por exemplo, para os lados dos Champs Elysées, da frequência das salas elegantes do sublime Lasserre, da serenidade dos almoços no Guy Savoy, do discreto mas quase insuperável Taillevent, do classicismo profissional do Laurent ou mesmo do sempre “trendy” Le Fouquet’s. Do outro lado do rio, concluí que também não iria muito ao Jules Verne, no 2º piso da Tour Eiffel, ou, bem mais adiante, a essa “meca”, laqueada a patos, que é o mitológico Tour d’Argent, onde a carta de vinhos é um calhamaço apenas para encher o olho e esvaziar a carteira. Fiz o mesmo quanto à sofisticação elegante do l’Ambroisie, não muito longe dali, na place des Vosges, também já coisa para outras bolsas. O mesmo sucedeu com uma “espécie” com que me reconciliei em Paris, mas com a qual havia sempre embirrado, em todo o mundo: os restaurantes de hotel. É que a capital francesa tem alguns dos seus grandes restaurantes inscrustados em hotéis, de que são bons exemplos o fantástico Pierre Gagnaire no Hotel Balzac, o Le Cinq, no George V, o Meurice ou o Bristol, nos hotéis do mesmo nome, ou o Alain Ducasse no Plaza Athénée. Algo perto desse nível estão os heterónimos de Joel Robuchon, os longínquos Pré Catelan ou La Grande Cascade, ou ainda o Apicius, com a criatividade que Vigato lhe transmite. Um amigo levou-me um dia, numa reserva com meses de antecedência, ao fantástico L’Astrance e, num jantar especial, perdi a cabeça mas ganhei um grande momento no Arpège. Mas, confesso, nunca fui a outros lugares ditos “imperdíveis” como o Le Grand Véfour, o Bon Accueil, l’Espadon ou o Ledoyen.

Neste mundo de nomes e sabores, onde poderia eu levar, afinal, a Epicur?

Pensei em lugares clássicos, como o simpático Chez Georges, na porte Maillot, o “incontornável” Benoît ou o muito “XVIème” Le Flandrin. Podia também optar pela espampanância um tanto gasta da Closerie de Lilas ou, ali perto, pela tradicional La Coupole, a menos que quisesse ir para um seu émulo do outro lado da cidade, lá para a Bastille, o sempre interessante Bofinger. A hipótese do tradicional Allard surgiu-me, mas logo a afastei, pelo trânsito e pelos turistas. Ainda pensei numa solução contemporânea, como o Hotel du Nord, junto ao canal Saint. Martin. E se fôssemos para nomes mais “batidos”? Talvez, cada um ao seu estilo, ir ao Au Pied de Cochon, ao Procope, ao Lapérouse ou ao Ami Louis, mas achei que a graça de um almoço divertido se perderia por aí. Pensei em recordar o jantar de Obama no Fontaine de Mars. Se estivesse um dia de sol, valeria a pena ver as caras bonitas que sempre animam o L’Esplanade, o Café Marly, o Emporio Armani Caffé ou o Mini Palais. Em matéria de segurança culinária, lembrei-me do Joséphine-Chez Dumonet, onde sempre comi bem, ou, solução das soluções, pedir ao Jean Louis para me garantir uma boa mesa, “à direita”, na Lipp. Ou, mesmo, se a fome não fosse muita, atravessar a rua e ir ao Café de Flore, onde o Francis faria provar à Epicur um “Welsh rarebit”? Estando ali perto, uma outra ideia seria visitar o simples mas excelente Le Perron ou, continuando nos italianos, a boa cozinha, servida por caras larocas, no bem mais alegre La Bocca della Verità. Se optasse por zonas mais vizinhas de casa, uma hipótese seria o acolhedor Relais du Bois, o vestusto Le Petit Retro com azulejos inesquecíveis ou a sempre confiável Brasserie de la Poste, onde, contudo, só há música à noite. Indo um pouco mais longe, poderíamos tentar o menu mais imaginativo do Beaujolais d’Auteuil ou, num registo muito diverso, a insuperável carne do acanhado Gourmet de Ternes. Neste caso, logo virando a esquina, também podíamos ir aos mariscos da La Lorraine mas, para tal produto, então ficaríamos bem servidos no Stella, outra vez perto de casa, onde o meu colega e poeta Luis Castro Mendes celebra, com teimosa regularidade, as suas juras eternas de amor. Estive, enfim, perto de ir às minha última “descoberta”, a cozinha moderna do animado Waknine. Mas não, acabei por escolher o Comme Chez Maman.

O Comme Chez Maman fica no XVIIème, em Batignolles, e foi-me assinalado pelo meu amigo Pierre Léglise-Costa, uma das grandes referências da cultura franco-portuguesa em Paris. Trata-se de um restaurante moderno, de uma cozinha francesa onde o toque belga é dado pelo chefe Wim Van Gorp. Abrimos com um prato da época, umas “moules” (mexilhões) cozinhadas ao forno e trazidas numa placa quente, bem condimentadas. Passámos depois a um clássico francês, a “blanquette de veau aux olives”, um prato que fazia as delícias do comissário Maigret, à mesa da (inexistente) brasserie Dauphine, saído para almoçar do 36 do quai des Orfèvres, nas páginas imortais de Georges Simenon. Experimentou-se também o “pot au feu”, que se revelou extremamente saboroso.

Nas sobremesas, dividimo-nos. Eu optei por uma “gaufre sublime”, uma vez mais a dar o tom belga da casa, que estava com a textura “crispy” adequada. Os dois outros convivas foram para dois clássicos franceses – e disseram terem feito boas escolhas: a “tarte tatin” e o “moeleux au chocolat”.

Nos álcoois, deixámo-nos guiar pelas recomendações da casa. Abrimos com um branco “Domaine de Pellehaut”, “Harmonie de Gascogne”, 2011. Seco, foi bebido bem fresco e satisfez, com um aroma frutado e um travo final intenso e agradável na boca. De seguida, escolhemos um tinto “Calèches de Lanessan”, 2009, da região de Haut-Médoc, onde predominam castas Merlot e Cabernet Sauvignon, um vinho forte, suave e frutado. Ambos foram excelentes opções, com razoável relação qualidade/preço.

“There is no such a thing as a free lunch” é a expressão clássica que costuma qualificar a incógnita da compensação de um convite. É uma “verdade como punhos”, confirmado por este simpático almoço para o qual a Epicur me convidou. O qual teve, como “obrigação” retributiva, que fiz com prazer, a escrita do que (talvez) tenham tido a paciência de aqui ler e que, quem sabe?, pode ajudar os leitores que venham a Paris, se acaso entenderem que os diplomatas são confiáveis nos seus gostos.

8.1.14

Mesas perdidas

Numa Lisboa fulgurante em novidades de restauração, mesmo em tempos de crise, ocorre, por contraponto, talvez inevitável, o encerramento de alguns restaurantes tradicionais. Hoje quero dar nota de dois.
 
A maior surpresa, pelo menos para mim, foi o fecho do "Coelho da Rocha", na rua do mesmo nome, uma espécie de "Gambrinus" de Campo de Ourique, um lugar onde se ir para almoços profissionais e para jantares de amigos, com um serviço clássico sempre de muito boa qualidade e atenção profissional. Tal como na supracitada casa da Baixa, de onde eram originários os fundadores do "Coelho da Rocha", as refeições começavam com as torradas molhadas em manteiga, um choque de colesterol e gosto. Em especial, havia por lá o famoso empadão de lebre, que ali chamou gerações de glutões.
 
O segundo encerramento a notar foi o da "Isaura", um restaurante na avenida de Paris, já perto da avenida Almirante Reis. Da última vez que por lá passei, achei o restaurante triste e sem chama, o que se refletia mesmo num serviço que já fora mais atencioso e discreto. Mas havia sido um lugar de muito boa comida, também num género lisboeta tradicional. Logo à entrada, depois de um espaço cuja utilidade nunca descortinei, descia-se uma escada difícil para uma sala ampla, rodeada de estantes onde pousavam os vinhos, cuja escolha, no meu caso, justificava quase sempre uma peregrinação cuidada. Nos fins-de-semana era pouso de famílias dos bairros vizinhos, muitas vezes com crianças. Tinha a belíssima caraterística de estar aberto aos domingos.
 
Deixo aqui imagens do "Coelho da Rocha" (em cima) e do "Isaura" (em baixo).

Eusébio e os restaurantes

Eusébio da Silva Ferreira, que agora morreu, era um homem que gostava da mesa, da comida, das longas conversas com amigos.

A "Adega da Tia Matilde" (na imagem) era, sem a menor dúvida, o seu local preferido. Vi-o por lá algumas vezes. Na tradicional casa da rua da Beneficência, onde Eusébio almoçava quase diariamente (depois de uma recente "alta" hospitalar, insistiu ir diretamente para lá), continua a comer-se muito bem. E é o único lugar que pode reivindicar, com justiça, o estatuto do "restaurante do Eusébio".

Já há uns anos, via-o também muito pelo "A Paz", no largo da Paz, à Ajuda. As poucas palavras que, em toda a vida, troquei com Eusébio foram precisamente nesse restaurante, que chegou a ser um marco na zona ocidental da cidade.

Um outro local que Eusébio frequentava, em especial com grupos de amigos ou em datas especiais, era o "Solar dos Presuntos", na rua das Portas de Santo Antão, um clássico lisboeta, de muito boa qualidade, muito marcado pela figura do seu proprietário, Evaristo, que chegou a desempenhar as funções de cozinheiro da seleção.

Mais recentemente, Eusébio - dizem-me - parava com frequência no "Sete Mares", uma excelente cervejaria na avenida Columbano Bordalo Pinheiro, entre a praça de Espanha e Sete Rios.

7.1.14

O fim do Shis?

Era um excelente restaurante, num sítio que considerávamos privilegiado, sobre a praia da Foz, no Porto. O Shis não terá resistido à fúria das ondas, na tarde de ontem.

Terei imensa pena se o Shis vier a desaparecer. Almocei e jantei por lá várias vezes, com familiares e amigos que, estou certo, partilharão esta minha tristeza.

23.12.13

Tasquinha do Matias

O meu pai, para quem estar à mesa sempre constituía uma perda de tempo, costumava ter esta frase, de cada vez que eu fazia uma viagem para visitar um restaurante: "Isso é uma inferioridade!" Na noite de ontem, se ele me tivesse visto andar quase 100 quilómetros para ir jantar a um restaurante perto de Tarouca, ido de Vila Real, imagino as ironias que teria de encaixar. Contudo, confesso que tenho muita pena de as não poder ouvir.

Há muitos anos que não ia a Ucanha, uma localidade que vive justamente orgulhosa da sua Torre medieval e da notável ponte, que me lembra a de Mostar, na Bósnia-Herzegovina. Fica, nos dias de hoje a escassos quilómetros da A24, bastante perto de Tarouca - e, se tiver tempo, aproveite-se para visitar também esta bela localidade.

Uma dica, há dois dias, deu-me a conhecer "A Tasquinha do Matias", que vim a constatar ser um simples mas excelente restaurante local (bem assinalado por indicação rodoviária, o que é raro), dirigido pela mão de mestre da simpática D. Filomena Matias Pinto. Porque todo o tempo não é demais nesta vida, cinco minutos depois estava eu a telefonar à senhora (938 714 321) e a arrematar uma jantarada para a noite de domingo. O nevoeiro esteve de cortar à faca, mas isso só tornou a aventura mais aliciante. E o resultado ficou, claramente, à altura das expetativas.

A função iniciou-se por uma alheira e uns queijos. Depois, partimos para a prova de algumas especialidades, sempre no registo carnívoro. Fomos por uns milhos à lavrador, em pote negro de ferro. Avançou-se depois para umas costeletas de borrego. Acabou-se com uma marrã à tasquinha. Ao lado, arroz de forno e batatas de duas espécies (no forno para as costeletas, cozidas para a marrã). Eu não resisti a uma aletria, num grau de consistência perfeito. Umas tangerinas da região absolveram os exageros. Um Murganheira Távora Varosa tinto 2011 acompanhou (lembro-me que o 2010 esteve melhor).

Prometo voltar à "Tasquinha do Matias". A Dona Filomena falou-me da posta de vitela na telha, do arroz de carqueja às 4as feiras, da cabidela de galinha à 5ª, do cozido à 6ª.

Porque é que tudo isto fica tão longe de Lisboa?

ps - a Dona Filomena é do Benfica, mas este ano isso não interessa...

22.12.13

Tralha

Por vezes, quando digo que sou de Vila Real, as pessoas falam-me imediatamente do "Espadeiro".

Durante muitos anos, Vila Real foi um deserto gastronómico. Para além de umas pensões tradicionais e algumas boas tascas, a escassa restauração nunca passava da mediania - e já estou a ser benevolente. Em inícios de 1969, ao lado do "quartel velho" e do Jardim da Carreira, sobre o stand automóvel do senhor Rosas, surgiu o "Espadeiro", sob a mão de Manuel Pipa e dos seus familiares, oriundos da boa "escola" das pensões. Com inteligência, fixou-se numa lista sólida de pratos regionais, a que acresceu o toque cosmopolita do "joelho da porca", trazido do germânico "eisbein". O boca-a-boca dos "connaisseurs" e as penas mediáticas atentas deram a conhecer ao país o "oásis" vilarealense que era o "Espadeiro", casa que estava para Vila Real como "O Cortiço" estava para Viseu, como o "Praça Velha" estava para Castelo Branco, como o "Tarro" estava para Portalegre e outros exemplos similares de província. A casa manteve-se nas mãos da família Pipa por algumas décadas. Mais tarde, caiu em posse galega (não da boa cozinha galega, mas de uns amadores de culinária de que até eu fui incauta vítima) e ainda de um emigrante nos EUA (que, contaram-me, hasteava o "stars and stripes" sobre aquele que, até ao final dos anos 50, foi o lugar da meta do "circuito automóvel"). Depois, um dia, o "Espadeiro" desapareceu.

Ontem, sob um novo conceito, renomado como "Tralha" (eu tinha um outro nome para a casa, mas cheguei tarde...), o espaço do velho "Espadeiro" renasceu, com um toque arquitetónico contemporâneo. A partir de agora, pelas duas amplas salas haverá "tapas" e bom vinho, espera-se que uma música à altura e, desejavelmente, um ambiente acolhedor, descontraído qb, suscetível de proporcionar um espaço de convívio intergeracional. Desejo todo o sucesso  à iniciativa e, quem passar por Vila Real, pode colocar no seu GPS: avenida Almeida Lucena (sem número).

Deixo uma foto que tirei, à saída da inauguração, com um toque de luz que fez com que a imagem do "Tralha" me saísse "à la Hopper" à moda da Bila.    

13.9.13

Lisboa - mais dez notas telegráficas

No início de julho, publiquei por aqui um "apanhado" sobre algumas mesas da restauração lisboeta por onde passara desde o meu regresso.

Deixo agora algumas notas telegráficas sobre mais alguns restaurantes, visitados mais recentemente.

O GAMBRINUS, na rua das Portas de Santo Antão, 23, continua excelente. É talvez dos escassos locais onde o "imobilismo" na criatividade gastronómica parece ser uma qualidade a destacar. O serviço é admirável, a qualidade é de rigor. É um restaurante caro, mas tem uma relação qualidade-preço pouco comum.

Passei pela GÔNDOLA, na avenida de Berna, 64, perto da praça de Espanha. O pátio é soberbo (pena o verão estar a acabar), mas devo confessar que a oferta culinária deixa a desejar. E o serviço, sendo razoável, deixou de ter aquela graça "démodée" (similar à que "A Quinta", no alto do elevador de Santa Justa, teve em tempos) que os clientes apreciavam.

Fui, pela primeira vez, ao ZAMBEZE, com uma esplanada soberba, na encosta do Castelo, saindo do largo do Caldas, na calçada Marquês de Tancos. O jantar teve duas condicionantes. A primeira foi ser vizinho de mesa de José Quitério, o que inibe qualquer fabiano a ter veleidades críticas. A segunda é que era uma jantarada grande, com dezenas de pessoas, o que não facilitaria nunca a avaliação. Mas saí satisfeito. E a vista, num edificio que tem um cómodo parque de estacionamento por baixo, vale bem a pena! 

Jantei bem, um tanto surpreendentemente, no LA FINESTRA, na enésima reencarnação de um velho espaço na avenida Conde de Valbom, 52 A, que conheci em eras passadas. A surpresa deveu-se a um certo ambiente "solto" do espaço, com grandes famílias e crianças, o que raramente prenuncia grandes ágapes. Verdade seja que fomos para as pizza, o que sempre facilita. Mas eram excelentes, com uma massa muito bem cozinhada. Voltarei.

Saí um tanto triste de OS ARCOS (rua Costa Pinto, 43), um clássico de Paço d'Arcos, que conheço desde os anos 60. Numa noite de sábado, o lugar estava quase deserto, o que faz imensa pena. A comida não desmereceu, mas tive a sensação de que havia um escasso cuidado na apresentação de alguns pratos - ou será que estou mais exigente do que era no passado? O serviço tinha aquela atenção que marca alguma restauração lisboeta (Gambrinus, Coelho da Rocha e poucos mais) tradicional.

Regressei também à VERSAILLES, na avenida da República, 15A. É um espaço muito bonito (o da "Colombo", em frente, há anos desaparecido, também o era). Ao almoço (ao lanche já nem tanto), o serviço é mais atento, talvez porque há ainda por lá caras do pessoal nossas conhecidas. A comida não deslumbrou, mas também não desiludiu. Continuo a pensar que a lista é longa de mais. Mas é sempre um bom ponto de encontro, para uma conversa (na parte alta da sala, claro).

A TASCA DA ARMADA, no largo da Armada, 36, está igual à imagem que dela já tinha. O proprietário desde 2011, um transmontano que dirige também o simpático "Toma Lá Dá Cá", na Bica, consegue, com um preço muito razoável, proporcionar uma comida honesta, sem elevadas pretensões, mas de boa qualidade. Comer na esplanada foi um privilégio deste verão. É um lugar a visitar de novo. Lembro-me, com saudade, de ter por lá ido, a primeira vez, com Miguel Portas.

Grande jantar tive no ASSINATURA, esse local escondido, na rua do Vale do Pereiro, 19, entre as ruas Alexandre Herculano e do Salitre. É um restaurante caro, um espaço elegante, mas um dos bons locais para um jantar sereno em Lisboa. Sob a mão experiente do chefe João Sá, com um serviço altamente profissional e atento, o Assinatura é um dos locais que vale realmente a pena visitar.

No largo das Flores, numa casa de esquina que já teve vários nomes (lembro o "Copo de Três"), fica agora o NOVA MESA, a rivalizar com o vizinho "Pão de Canela", que tenciono visitar um dia destes. Numa noite com muitos turistas estrangeiros, a experiência, não sendo deslumbrante, acabou por ser melhor do que inicialmente temia. A relação qualidade-preço foi muito razoável e a esplanada acabou por ser um lugar simpático para uma quente noite lisboeta.

Finalmente, uma nota para uma casa deliberadamente simples, muito próxima da "Varina da Madragoa", mas também na rua das Madres, num espaço que já se chamou a "Mercearia" (que, para um jantar, "fechei" um dia numa despedida). Agora tem por nome OSTERIA e apresenta-se como um lugar marcadamente italiano, como as imagens nas paredes atestam. A oferta é escassa mas simpática, sem um grande requinte gastronómico, com doses curtas, do tamanho do preço. Um local jovem, "solto" e ao gosto de uma Lisboa nova que por aí anda. E ainda bem, porque estes são os preços "à altura" da crise.

12.9.13

Mitos sobre vinhos

01 - O vinho, quanto mais velho melhor!

Uma das frases feitas preferidas de portugueses e não portugueses. Quase todos estão convencidos da razoabilidade da afirmação! Infelizmente, são poucos os vinhos que sabem envelhecer bem e ainda mais raros os que conseguem envelhecer com saúde. A quase totalidade dos vinhos mundiais, espumantes, brancos, rosés e tintos, é feita para ser consumida num curto prazo de tempo. A maioria dos rosados tem um período de vida útil de um ano, os brancos de dois anos, enquanto que nos tintos esse prazo se alarga para um máximo de quatro ou cinco anos. Por outro lado, sabendo que as condições de guarda dos vinhos são raramente razoáveis, não espere demasiado tempo para abrir as suas garrafas. Os poucos vinhos pensados para durar anos, décadas, são vinhos excepcionais... e geralmente muito caros. Mas, claro, nada se compara ao prazer de poder desfrutar de um vinho velho em plena saúde. Se tiver disponibilidade de capital e de espaço de guarda, atreva-se neste desiderato.

02 - Um vinho "Reserva" será sempre melhor do que um vinho "normal". As palavras "Reserva", "Colheita Seleccionada" ou "Garrafeira" são uma garantia de qualidade!

Infelizmente, a realidade não confirma esta presunção. Na verdade, este tipo de adjectivação não tem qualquer relacionamento directo com a qualidade de um vinho. Os designativos "Reserva" e "Garrafeira" são normativos legais que em cada região determinam o período mínimo de estágio em barricas e, posteriormente, em garrafa. Não caracterizam mais nada e não existe qualquer correlação com a qualidade real. Indicações como "Colheita dos Sócios", "Colheita Seleccionada", "Selecção Especial", "Reserva Pessoal", ou outras referências, são opções de "marketing" sem qualquer conexão com a qualidade do vinho. Muitos vinhos triviais e de fraca qualidade ostentam estas palavras nos rótulos, da mesma forma que alguns dos melhores vinhos nacionais não lhe fazem referência. Por si só, estas palavras nada lhe dizem sobre o vinho.

03 - Um vinho "DOC" será sempre melhor do que um vinho "Regional".
 
Mais uma vez, a realidade encarrega-se de não confirmar esta suposição. Para que um vinho tenha o direito de ostentar o nome de uma denominação de origem controlada terá de obedecer a regras claras, nomeadamente quanto ao uso das castas autorizadas e recomendadas para essa mesma DOC. Se, por exemplo, um produtor recorrer a castas não contempladas para essa mesma região, mesmo que melhores, ficará impedido de usar o nome da DOC. Algumas denominações de origem mais jovens, com menos historial, por vezes criadas apressadamente, nem sempre fizeram apostas racionais na escolha das castas recomendadas. Como tal, muitos produtores sentem-se constrangidos a recorrer a castas não recomendadas, castas que consideram ser mais adequadas às suas necessidades. É isso que explica por que alguns dos melhores vinhos portugueses são vinhos regionais. Este fenómeno é igualmente válido para outros países europeus, sobretudo Itália.

04 - O vinho de mesa não presta.

Por regra, o vinho de mesa é efectivamente de fraca qualidade e não merece demasiadas considerações. Existem, no entanto, raras excepções, e por vezes o vinho de mesa é a única solução para alguns produtores. Por exemplo, a legislação portuguesa não permite a mistura de vinhos provenientes de duas regiões diferentes. Imagine que existia (e existe) um vinho que emparceirava uvas do Dão e do Douro. Isto seria ilegal face à lei actual, excepto se vendido debaixo do chapéu-de-chuva de vinho de mesa. É esse o caso de um ou outro vinho português de topo. Ou imagine que um vinho não seria capaz de atingir a graduação mínima para poder ser considerado DOC ou Regional. Os vinhos de mesa seriam seguramente um refúgio comum entre os produtores portugueses, não fora a grave limitação de os vinhos de mesa não poderem estampar o nome de castas, e sobretudo, a data de colheita no rótulo.

05 - Os vinhos mais caros são sempre melhores.

Seguramente que não e os exemplos a provar o contrário abundam. Num mercado livre, o preço dos vinhos é determinado não só pelos custos de produção mas também pela sua escassez, pelo factor moda, pelo eventual empolamento feito pela comunicação social, por boas campanhas de promoção, etc. No entanto é verdade que os melhores vinhos são usualmente mais dispendiosos na elaboração. Melhores barricas, menores produções, mais mimos, melhores rolhas e melhores equipamentos implicam custos acrescidos. Mas mesmo estes custos acrescidos não garantem, de forma alguma, que o produto final seja melhor ou sequer bom...

06 - O vinho branco não consegue envelhecer e tem de ser bebido o mais depressa possível.

Embora a afirmação não seja universal, existem razões mais do que suficientes para o depoimento. São poucos os vinhos feitos para envelhecer e ainda menos os vinhos brancos que têm capacidade para envelhecer. Por outro lado, existem exemplos vivos de vinhos brancos que envelhecem de forma admirável. Os vinhos da casta Alvarinho, de Monção e Melgaço, e os vinhos da casta Encruzado, no Dão, são os melhores exemplos portugueses. Fora de Portugal, a capacidade de guarda dos Riesling alemães é afamada, podendo viver em perfeita saúde por mais de 40 ou 50 anos.

07 - O vinho rosé é uma mistura de vinho branco com vinho tinto.

Não, não é, mesmo se a convicção se encontra firmemente enraizada no nosso imaginário. O vinho rosado é feito a partir de uvas tintas. A polpa da quase totalidade das uvas tintas é incolor, incapaz de acrescentar pigmentação ao mosto. São as peles, ou melhor, os corantes existentes nas películas das uvas tintas que acrescentam coloração ao vinho tinto. Quanto maior for o contacto com as peles, quanto maior for a extracção, mais intensa será a cor resultante. Os vinhos rosados passam pouco tempo de maceração em contacto com as películas e, como tal, não têm tempo suficiente para extrair muita matéria corante. O vinho resultante frui assim de uma cor mais aberta e rosada.

08 - O vinho branco tem de ser produzido com uvas brancas.

 Na verdade... não! O vinho branco pode ser elaborado a partir de uvas tintas. Como acabámos de ver, a polpa das uvas tintas não tem matéria corante e, portanto, o sumo resultante é incolor. Se as uvas forem prensadas em bica aberta, ou seja, sem contacto com as peles, o vinho resultante é branco, esbranquiçado ou muito levemente salmonado. Como tal, é possível, e por vezes comum, que os vinhos brancos sejam elaborados recorrendo a uvas tintas. O caso mais paradigmático ocorre em Champagne, onde as castas Pinot Noir e Pinot Meunier, ambas tintas, são por regra vinificadas em branco. Quando assim é, o champanhe é categorizado como "blanc de noirs". Em abono da verdade, convém referir que se exceptuarmos o caso particular dos vinhos espumantes, raramente vemos esta técnica aplicada.

09 - O Vinho Verde é feito com uvas vindimadas ainda verdes, em oposição ao vinho maduro, que é elaborado com uvas completamente maduras.

A imagem é comum, mesmo entre alguns apreciadores informados, mas não tem qualquer fundamento. Vinho Verde é o nome de uma região portuguesa, tal como as regiões do Douro, Ribatejo ou Bairrada. A região ganhou o nome de Vinho Verde por ser a região mais verde e húmida de Portugal, o Minho. Pela mesma razão, a região de turismo chama-se Costa Verde. Como seria de esperar, os vinhos provenientes da região do Vinho Verde são elaborados com uvas maduras, tal como nas restantes regiões portuguesas.

10 - Os verdadeiros grandes vinhos não sabem bem enquanto são jovens e só melhoram com a idade.

Não acredites nisso! Os bons vinhos são sublimes desde a nascença e não é por um milagre tardio que se transfiguram de bestas em bestiais. Claro que os vinhos que envelhecem bem poderão ser duros e severos enquanto jovens, mas a qualidade tem de se mostrar desde o primeiro instante. A história do patinho feio não tem cabimento no mundo do vinho. Um mau vinho nunca se transformará num bom vinho!

(da revista "Wine")

16.8.13

Restaurantes do Minho



                                                                                                             (atualização Agosto 2013)

Aqui deixo o meu guia pessoal de restaurantes do Minho.

Comecemos por onde se deve. Perto de Guimarães, em Moreira de Cónegos, está um dos melhores restaurantes do país, o São Gião

E, perto de Famalicão, está uma das melhores propostas gastronómicas do Minho, o Ferrugem, uma das grandes novidades dos útimos anos na  região. 

Desçamos então o Minho, de Melgaço até à Póvoa de Varzim.

Logo em Melgaço, ir ao Panorama, sobre o mercado, é uma excelente opção, como o é a magnífica Adega do Sossego, no lugar do Peso.

Lamento dizer que não me sinto tentado a parar em Monção (embora me digam que devo experimentar o Galiza Mail'o Minho e o Sete à Sete), nem em Valença (onde o outrora interessante Monte do Faro, com caça, desapareceu).

Perto de Valença, falam-me muito bem da Quinta do Prazo, que ainda não conheço.

Já em Caminha, uma opção simpática é o Duque de Caminha, na velha rua Direita. Mas longe vão os tempos do bacalhau do Chico, na estrada velha para o Moledo, ou do requinte do Napoléon, ainda antes da ponte, do lado de Seixas. Já para não falar da saudade imensa da classissíma Pensão Rio Coura, para os lados da estação. Na cidade, contudo há duas ou três novas propostas de restauração que tenho de verificar ainda.

Uns poucos quilómetros depois, pode ir, com toda a segurança, ao Ancoradouro, no Modelo, com grandes grelhados, de peixe e carne. O Alfredo dir-lhe-á o que há de melhor, na ementa escassa mas excelente.

Logo se seguida, em Vila Praia de Âncora, a Tasca do Ibrahim dá-lhe um bom peixe.

Bem perto, o mais despretensioso Coral, do sorridente José, tem também algum marisco e boas outras coisas do mar.

Continuo - culpa minha! - sem ir ao Dona Belinha, no Hotel Meira, esperando que possa estar à altura da restauração de qualidade a que este clássico hotel de Âncora nos habituou.

A caminho de Viana, tem um pouso forte e seguro na Mariana, em Afife, com peixe sempre de qualidade.

Viana do Castelo nunca foi uma "meca" gastronómica, salvo no tempo (há muito ido) do bacalhau da Margarida da Praça e dos mariscos da Zefa Carqueija (cuja reedição recente, noutro registo de oferta, me não convenceu). Longe vai também a graça estival do Raio Verde e a novidade que foi o Luziamar, ambos no Cabedelo. Em tempos, comeu-se bem no Viana-Mar, como também aconteceu no início do Alambique, que tem a mesma origem. O restaurante da excelente estalagem Melo e Alvim, que tinha boa qualidade, fechou, entretanto - e é pena! Mas eu tenho grandes saudades da Pensão Freitas, do Sport e, nos anos logo após a sua abertura, do Costa Verde.

Onde se come em Viana, nos dias de hoje?

Para um menu tradicional, num ambiente simpático e com um serviço familiar, recomendo o Laranjeira, junto à avenida principal da cidade, sob a batuta do meu amigo José Laranjeira. É, de há décadas, o meu poiso mais frequente na cidade.

Na zona portuária, junto ao castelo, procure-se a Tasquinha da Linda, com excelente peixe e marisco, uma das novidades positivas da gastronomia vianense. Com um ótimo serviço e a simpatia da Linda.

O Maria de Perre, também junto à avenida central, é uma opção simpática e apresenta uma cozinha estável.

A dois passos, o Casa de Armas, com outras pretensões, é um lugar onde já comi bastante bem mas também de onde já saí menos satisfeito. Mas continuo a dar-lhe o benefício da dúvida, porque é uma casa que foi responsável por um salto de qualidade na gastronomia da cidade.

Na zona nova em frente à nova biblioteca, testei há dias O Manel, versão moderna de uma casa que conheci ali por perto. Sem desiludir, necessito ainda de ser convencido.

Uma nota de memória para a Tasca do Valentim, agora com uma extensão para grelhados de carne, no campo da Senhora da Agonia, que nos habituou a um bom peixe, mas cujo "reinado", na zona da Ribeira, me parece ameaçado pela já referida Tasquinha da Linda.

Num registo acentuadamente turístico, o Três Potes e o vizinho Cozinha das Malheiras cumprem a sua função, que é extensivo ao Santoínho, na saída de Darque para o Porto, pela estrada antiga.

E resta uma nota para o restaurante da Pousada de Santa Luzia, no alto do monte com o mesmo nome, para dizer que, não obstante um serviço atento e muito simpático, apresenta uma relação qualidade/preço pouco favorável.

Fora da urbe, a caminho de Ponte de Lima, aconselho o Camelo, em Santa Marta de Portuzelo.

Mais para sul, abaixo de Esposende, encontrará uma expressão marítima deste último restaurante, no Camelo da Apúlia, mas a última vez que por lá passei saí um pouco desiludido.

Num ambiente curioso de velha pensão, a Rita Fangueira, em Fão, continua, há muitos anos, a ser uma opção curiosa, mas já lá não vou há tempos.

À entrada da Póvoa de Varzim, uma espécie (agora) renovada de barco acolhe o sempre excelente Marinheiro, onde nunca tive uma má experiência.

Dentro do casino na cidade, com sofisticação, come-se muito bem no Egoísta. Caro, claro.

Se quiser ia a Vila do Conde, encontrará um bom poiso no nunca desmerecido Ramón (mas será que ainda estamos no Minho?).

Vamos agora avançar para o interior.

A caminho de Barcelos, na Pedra Furada, a Maria é um clássico sempre seguro e interessante, com uma garrafeira notável.

O mesmo se diga para a Bagoeira, no centro de Barcelos, onde só não aconselho visitas nos movimentados fins-de-semana de verão.

Um pouco mais a sul, perto de Santo Tirso, vale a pena passar por Rebordões e visitar o Cá-te-espero, com comida simples, mas de grande qualidade.

Seguindo para Vila Nova de Famalicão, uma terra ainda não refeita da saudade do Íris, não se sai totalmente desencantado do histórico Tanoeiro ou, num registo bem mais popular, à vizinha Sara Barracoa.

Mas, se quiser sair um pouco da urbe, terá uma magnífica experiência no Ferrugem. Trata-se de um local de grande qualidade, com uma cozinha inventiva. O serviço é excelente. Dalila e Renato Cunha criaram um belo espeço com alta qualidade a condizer. Telefone antes a perguntar como lá chegar, porque, sem GPS, não é fácil.

Guimarães deu um merecido "salto" com a Capital da Cultura, aventura em que por lá andei com alguma frequência. Ficam saudades do histórico Jordão e do estimável Virabar, dois locais que marcaram a cidade, por anos.

Dessas visitas, ficaram-me na (boa) memória algumas visitas ao renovado Oriental, onde sempre tive boas experiências.

De igual modo, comi muito bem no Novo Restaurante Nora do Zé da Curva. Convém notar que o Antigo Nora do Zé da Curva é ainda uma opção agradável.

Com a segurança de uma cozinha tradicional, regressei com gosto ao clássico Florêncio, em S. Torquato.

Tive já uma experiência bastante aceitável no moderno PapaBoa, perto da universidade, sendo que o seu prolongamento no Histórico, tendo muita graça como espaço, parece-me ficar aquém na exigência culinária.

Opção atual é ainda o Café Concerto Vila Flor (uma agradável surpresa, no centro cultural com o mesmo nome).

Mas, voltando ao início deste post, se está por estas bandas, lembre-se do início deste texto e aproveite para ir ao S. Gião - como disse, um dos grandes restaurantes portugueses, situado em Moreira de Cónegos, junto ao estádio do Moreirense, sem grandes anúncios exteriores., porque não precisa... Não conhecer esta "catedral" oficiada por Pedro Nunes é imperdoável.

E chegamos a Braga, onde as coisas mudaram muito, desde o tempo dos desaparecidos e saudosos Narcisa e Abade de Priscos e onde o Sameiro já viveu melhores dias.

O Arcoense é, a meu ver, o grande "must" da cidade.

Num registo também muito seguro, o Expositor do Migaitas oferece um serviço excelente.

A grande descoberta que, entretanto, fiz foi o Flor de Sal, um pouco fora do centro, onde tive uma excelente refeição.

O Inácio e o Cruz Sobral continuam a ser dois clássicos de confiança, sendo que O Alexandre não desmerece.

Falaram-me também bem da Casa da Artes, mas ainda por lá não passei.

Em Ponte de Lima, uma bela vila que teima em não querer ser cidade, a escolha é grande.

Descubra, nos arredores (porque dá algum trabalho, no caminho para a Madalena), o extraordinário Bocados, um magnífico modelo de cozinha, ao mesmo tempo tradicional e inventiva, onde sempre comi muito bem.

Pode-se também ir, à confiança, à Carvalheira, em Arcozelo (do outro lado da ponte).

Num edifício novo, o belo Açude, sobre o rio, não desilude.

Para o sarrabulho, tem sempre os dois vizinhos concorrentes: o Manuel Padeiro e a Encanada.

Falam-me agora bem da Tulha, mas não experimentei. Mas, por ali, eu ainda tenho saudades das portas de vai-e-vem da Clara Penha (quem se lembra?) e dos outros tempos do Gaio.

Que resta ainda do Minho?

Quem vai na estrada de Braga em direção a Chaves, no lado contrário a Póvoa do Lanhoso, encontrará o Victor, em S. João do Rei, com o seu famoso bacalhau.

Mais a ocidente, na estrada que sai de Amares (onde o Milho Rei já teve o seu tempo) para o Gerês (localidade onde não se come!), é famoso o restaurante da Pousada, em Santa Maria do Bouro, com a sua mesa de doçarias (perto, havia o velho e imenso Abadia, mas perdi-lhe o rasto, há uns bons anos).

Um pouco mais longe, em Terras de Bouro, o Abocanhado é uma excelente opção gastronómica, além de um cenário deslumbrante.

O Torres, numa periferia de Vila Verde, é uma opção sempre interessante.

Lembro ainda o Conselheiro, em Paredes de Coura, onde já se comeu muito bem na clássica Miquelina já está longe de ser o que era.

Em Ponte da Barca, as minhas experiências nos últimos anos não foram as melhores (O Moínho foi uma desilusão), pelo que abalo sempre, quilómetros acima, para os Arcos de Valdevez, onde o Grill Costa do Vez, que conheço há décadas, é uma boa opção, desde que fora do período de férias e festas.

Em direção ao norte, no Soajo, o Espigueiro costuma ser de confiança.

É tudo quanto a minha experiência de restauração no Minho me leva a notar, complementado por apontamentos de "informadores". Não excluo que possa estar a ser injusto para algumas casas, por omissão, exigência ou mero arbítrio. Mas este é o risco de quem ousa ter opiniões.

12.8.13

Restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro


(Revisão agosto 2013)

Falemos dos restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro.
 
Se se entrar em Trás-os-Montes pelo Porto, pode-se sempre parar, já depois de Amarante, no Marão, em direção a Vila Real, pouco antes do Alto de Espinho, na Pousada de S. Gonçalo, agora lamentavelmente reduzida a um "franchising", pelas Pousadas de Portugal. O nível da cozinha já não é o mesmo de antigamente, mas ainda é uma opção possível. Mas Vila Real está a menos de 20 quilómetros...

Já perto de Vila Real, e se quiser uma experiência "radical", em termos de mergulho numa comida muito popular, pode procurar-se, fora do IP4, a Toca do Lobo, em Parada de Cunhos, na estrada antiga, voltando em direção ao Porto. Atenção: oferta restrita e muita simplicidade.

Vila Real, as coisas mudaram muito. Com o velho Espadeiro a já não honrar outros tempos e depois da desaparição dos excelentes Barriguinha Cheia e Vilalva (um abraço, João Rodrigues), a cidade tem hoje poucos pontos altos.

Sem a menor dúvida, o Cais da Villa, junto da estação de caminhos de ferro, é a melhor opção atual no burgo, se bem que com preços que me parecem ligeiramente exagerados. Verifiquei que a qualidade não baixou e tem uma carta de vinhos excecionalmente boa.

Seguindo pelo velho circuito, pode ir-se com confiança ao Paulo, no meio do bairro de Araucária, uma casa já clássica, com ambiente simples e comida segura (peça ao Paulo a "reca d'Aleu" da casa).

Ali perto, o Grill O Costa não me convenceu, em duas visitas, na comida como no serviço. Mas o facto de um credenciado crítico, como é Virgílio Gomes, me ter transmitido uma opinião oposta à minha leva-me a dar o benefício da dúvida a este restaurante.

Depois do desvio para Mateus, em Abambres, encontrar-se-á o Maria do Carmo, uma casa tradicional, que se destaca por uma grande constância e pratos abundantes (e alguma barulheira...).

Em frente, sem deslumbrar, come-se relativamente bem no Viúva, casa que conheci por indicação de um antigo ministro dos Negócios estrangeiros que, também na avaliação gastronómica, merece respeito.

Um pouco mais abaixo, numa rotunda, está o Mateus, com uma sala acolhedora e um serviço simpático.

Na parte alta da cidade, perto da igreja da Nossa Senhora da Conceição, pode-se ir com toda a segurança ao Museu dos Presuntos, onde o meu amigo Silva apresenta produtos de excelência, da zona de Montalegre, com uma imbatível escolha de vinhos do Douro.

Na cidade, não se fica nem desapontado nem deslumbrado no Terra de Montanha.

Também perto de Mateus, no Quinta do Paço, em Arroios, há uma mesa simpática, com um espaço interessante de hotelaria rural.

À saída norte da cidade, na rotunda antes de entrar na estrada antiga para Chaves, muito próximo da IP4, encontra-se o seguro Lameirão, dirigido pelo Eleutério e pela Alice, com pratos locais simples, variando diariamente, de boa qualidade e a preços bem moderados. Sou um cliente assíduo, quando vou a Vila Real.

Logo adiante, o Chaxoila, no enésimo renascimento de um restaurante histórico, como instalações renovadas (mas sempre com a velha e agradável ramada exterior) e uma restauração bastante recomendável, sob a batuta do simpático José Carlos. No verão, é um must, mas os preços não são baixos.

Infelizmente, continuo a não encontrar razões gastronómicas para parar em Vila Pouca de Aguiar.

Nas Pedras Salgadas, visita-se o Conde, junto à antiga estação. Nele, o Francisco apresenta uma cozinha honesta, sem gongorismos e a preços relativamente moderados.

Segue-se depois para Vidago: o restaurante de alta gama, no belo e renovado Hotel Palace - que é obrigatório visitar! -, está agora sob a direção do chefe Rui Paula (do DOC na Folgosa e do DOP no Porto) e deu um salto considerável de qualidade, com a relação qualidade-preço a melhorar, face aos primeiros tempos da reabertura do hotel. 

A restauração de Chaves tem um historial interessante: recordemos o Cinco Chaves, o restaurante do Trajano, o Comercial, o Aurora, os bons tempos do Retornado e o período áureo do Leonel.

Hoje, porém, as coisas são diferentes. O Carvalho, com a cozinha da dona Ilda, impõe-se como a principal referência gastronómica da cidade, no Tabolado, junto às termas.

Não nos devemos esquecer também, para uma comida regional sólida e segura, da Talha, do João Monteiro, a seguir ao quartel, no caminho para a A24.

Para uma oferta tradicional, a preços razoáveis, há sempre o histórico Aprígio, do nome do proprietário, embora difícil de encontrar.

Muito mais fácil de localizar é a Adega Faustino, no centro da cidade, com os seus clássicos tonéis, um lugar um pouco incómodo para se comer, mas muito típico e agradável.

E convém não esquecer, perto do aeroporto, o muito recomendável Canjirão, com uma lista de qualidade e preços muito confortáveis.

Não tenho notícias recentes do restaurante do Hotel Forte de S. Francisco, que oferecia uma gastronomia interessante, quando por lá preponderava na gestão o meu amigo António Ramos.

A ocidente, de Boticas não tenho notícias, depois da desaparição, já há muito, do Santa Cruz (ah! aquelas trutas lardeadas com presunto!).

Se for só para ir lá comer, creio que não vale a pena ir a Montalegre, mas, se se tiver de passar por lá (e Montalegre deu um "salto" interessante como cidade), o Nevada parece ser a escolha certa

Pela estrada em direção ao Gerês, há, nos Pisões, o Sol e Chuva, uma opção de recurso.  

Mas voltemos um pouco a sul. Entrando na região pela Régua, logo em Lamego (que é Beira Alta, eu sei!) pode-se ir, à confiança, a um clássico muito simples, junto à Sé, a Casa Filipe.

Há meses, visitei o novo Valdouro, um investimento louvável e ambicioso, também próximo da Sé, onde comi bastante bem.

Ainda antes de chegar a Régua, recomendo, muito vivamente, uma desvio de alguns quilómetros, na estrada para o Pinhão, para uma ida ao DOC, na Folgosa. Não é barato, mas é sempre muito bom, como há dias testei (a varanda, sobre o Douro, com os menus a terem de ser iluminados por pilhas, é soberba numa noite de verão). A cozinha inventiva do Rui Paula (que vem do Cepa Torta, de que já falaremos, e que, como já referi, hoje se prolonga no DOP, no Porto, e no Hotel Vidago-Palace) é uma das grandes conquistas da restauração nortenha (e, eu diria, nacional!).

Um pouco adiante, no proprio Pinhão, há o restaurante da Vintage House, com preços "estrangeiros" e lista, para mim, demasiado convencional.

Chegados à Régua, podemos ir, à confiança, ao Castas e Pratos, nos armazéns da estação (que inspirou o Cais da Villa, em Vila Real).

O Douro In, num primeiro andar junto ao rio, onde se comeu muito bem, tem nova gerência, mas ainda por lá não passei desde então.

Fora da cidade, há duas opções: o Varanda da Régua, em Loureiro, com uma vista soberba e um bacalhau e cabrito já consagrados e, neste caso reservando e tendo paciência para aturar o ar grave do dono, a Repentina, em Poiares, com um cabrito já lendário.

Mudemos de ares. Lá mais para cima no mapa, descobri há dias, em Valpaços, o Boa Cepa, que me pareceu um esforço louvável, mas o facto de ser domingo tornou a refeição "atípica", pela enchente.

Embora a gerência tenha mudado, dizem-me que se continua a poder ir, em Alijó, ao Cepa Torta, onde "nasceu" o Rui Paula, de quem já falei.

No caminho para Bragança, em Macedo de Cavaleiros, tendo deixado de ser opção esse pouso clássico que era a "defunta" Estalagem do Caçador, falam-me agora bem do Brasa, mas não conheço ainda.

No caminho de Macedo para Mogadouro (estrada muito complicada, aviso!), pode visitar-se o histórico Saldanha, em Peredo, onde o João Saldanha é mestre há quase meio século.

Em Mirandela, a grande novidade nos últimos anos é o excelente Flor de Sal, onde o azeite é rei e senhor.

Há por lá também uma cozinha sempre sólida, mas não muito inventiva, no Grês.

Já há muito que não vou ao Maria Rita, no Romeu, um espaço rural inesquecível onde sempre se comeu razoavelmente bem, fugindo das enchentes de fim de semana.

Chegados a Bragança, temos várias opções.

O Solar Bragançano é o pouso mais seguro, com bons produtos e uma bela história a honrar. Fui lá há dias e foi um jantar excelente.

Uma outra excelente opção é, desde há vários anos, o Geadas. Voltei lá e fiquei muito bem impressionado.

As informações de boa fonte que tenho do restaurante da Pousada de S. Bartolomeu, que nunca deslumbrou, não são animadoras, nomeadamente na relação qualidade/preço.

A oriente de Bragança, em Gimonde, uma recente ida ao Dom Roberto deixou-me uma impressão menos boa das que trouxera de outras ocasiões (mas um dia não são dias). Ainda nessa aldeia, o Quatro foi, no passado, uma alternativa à altura, mas terei de confirmar. O mesmo se passa com o Abel, logo ao lado, de cuja posta me dizem maravilhas.

Mais adiante, em Miranda do Douro, vai-se à Balbina, mas dizem-me haver coisas novas por lá. Se se preferir andar uns quilómetros mais, pode provar-se a mais histórica das postas mirandesas, em Sendim, na Gabriela.

Ainda um pouco mais adiante, a Lareira, em Mogadouro, é "o" lugar da cidade (e o novo IC5 é um acesso fantástico para a região).

Um pouco mais para o sul, recomenda-se o já clássico Artur, em Carviçais (que pode ter crescido um pouco demais) e falam-me bem do Lagar, em Torre de Moncorvo, que ainda não experimentei.

E, relativamente perto, cada vez me referem mais o Lameirinhos, em Cabanas de Baixo. Também lá irei, um dia.

E aqui fica uma peregrinação básica por algumas mesas transmontanas. Uma escolha pessoal e com base em informações que reputo como fidedignas. Mas a responsabilidade final da seleção é minha, claro!

9.7.13

Pelas mesas de Lisboa

Em fevereiro, ao reatar este blogue, dedicado a notas sobre restaurantes, tinha a intenção de assegurar, com regularidade, a publicação de umas pequenas notas sobre cada um dos locais visitados. Mas estas boas intenções desapareceram com o tempo, ou melhor. Optei por fazer um percurso muito ligeiro, propositadamente desorganizado, pelos restaurantes de Lisboa pelos quais me lembro de ter passado ao longo destes cinco meses, como notas marginais sobre outras mesas que tenho intenção de vir a visitar

Por onde começar? Campo de Ourique parece-me um bom ponto de partida.

Por mais de uma vez, estive na TASCA DA ESQUINA (rua Domingos Sequeira, 41C), uma boa "invenção" de Vitor Sobral, um local que, não sendo barato, é agradável para conversas e tem uma razoável relação qualidade/preço. 

Já não diria tanto da CERVEJARIA DA ESQUINA (rua Correia Teles, 56), ligada ao mesmo "chef", que me pareceu acentuar demasiadamente nos cifrões, embora o seu menu seja indiscutivelmente bom.

Ali bem perto, experimentei o SOLAR DOS DUQUES (rua Almeida e Sousa,58b), um lugar de que me tinham falado e onde tive uma experiência agradável, pelo que merecerá novas visitas. Não é barato, em especial se nos deixarmos seduzir pelas entradas.

Uma renovada e marcante experiência, porque se trata de um dos melhores alentejanos de Lisboa, foi uma ida ao MAGANO (rua Tomás da Anunciação, 52), que continua magnífico. Mas nada barato, diga-se.

Um regresso ao STOP DO BAIRRO (rua Tenente Ferreira Durão, 55A) deixou-me os habituais "mixed feelings" que mantenho sobre este restaurante. Os preços é que são mais do que convidativos

Com regularidade, vou comer (eu e, como tenho notado, bem mais de metade da direção do PSD) ao COMILÃO (rua Tomás da Anunciação, 5a), do meu amigo Cardoso, cuja parede apresenta uma hagiografia "laranja" sem paralelo.

Pela zona, ainda não fui, desta vez, ao clássico e sempre seguro "Coelho da Rocha" (rua Coelho da Rocha, 104), do mesmo modo que me falta passar uma vez mais pelo sempre estimável "Cataplana & Companhia" (rua Ferreira Borges, 193), por muitos ainda conhecido pelo "antigo Tico Tico", onde sempre comi bem.

Ainda no bairro, saudades ficaram-me, para sempre, dos, entretanto desaparecidos, "Tasquinha da Adelaide" e "Charcutaria".

Descendo à Estrela, do outro lado do jardim encontra-se o OUTRO TEMPO BAR (rua João Anastácio Rosa, 2), um local agradável, sem grandes pretensões, onde se pode fazer uma refeição simpática, com um serviço muito profissional. Passo por lá à noite, para uma ceia tardia.

Com alguma regularidade, desço também ao n. 212 da rua de Bento, para repetir, sempre sem o menor risco de desilusão, o "rollsbeef" de Lisboa, no magnífico CAFÉ DE S. BENTO (aproveito para lembrar, numa nota garantidamente proveitosa, que idêntico bife pode ser degustado na "filial" do CAFÉ DE S. BENTO no Casino do Estoril, onde os "habitués" irão encontrar caras conhecidas de excelentes profissionais da casa).

Subindo à Madragoa, passei algumas vezes pela VARINA DA MADRAGOA (rua das Madres, 34) agora já sem o Oliveira mas com a atenção amiga do Veiga, um local simples, com a "qualidade" extra de estar aberto ao domingo.

Qualidade, aliás, que um pouco mais adiante, é partilhada pelo sempre agradável GUARDA MOR, no n. 8 da rua do mesmo nome, dirigido pela Sofia, neste que é um dos meus pousos preferidos para fechar a semana.

Muito perto, embora num registo de preço bastante mais elevado, continua excelente a A TRAVESSA (travessa do Convento das Bernardas), sob a batuta experiente da Vivianne, que, com a Sofia, antes tinha feito a "dupla" que, por muitos e bons anos, manteve uma antiga "Travessa", ali ao pé da Assembleia. Já agora, lembro-me que, lá pela zona do parlamento, ando há muito para voltar ao "XL" (calçada da Estrela, 57), também um bom "domingueiro".

Estou curioso de revisitar o "Alma" de Henrique Sá Pessoa, no 92 da calçada Marquês de Abrantes, um restaurante com cozinha contemporânea de muita qualidade.

Com um serviço de notável constância e um espaço exterior praticamente imbatível em toda a Lisboa, aconselho sempre o restaurante CONFRARIA da YORK HOUSE, no 32 da rua das Janelas Verdes. 

Muito perto, no Hotel da Lapa, está uma das boas mesas de Lisboa, o LAPA (rua do Pau de Bandeira, 4), o qual, não sendo barato é garantido em qualidade. 

Um pouco adiante, na rua do Conde, dois registos, de nível bem diferente: no n.61, o muito simples CONDE, com um acolhimento familiar e uma comida despretenciosa mas muito "honesta".

No n. 5, o LUMAR, também recomendável, só uns furos ligeiramente acima no preço, a rimar com um melhor espaço.

Saudades ficaram, na mesma rua, dos bons tempos do "Sua Excelência" e do "Nariz de Vinho Tinto". Ambos o vento levou.

Na área, também não passei ainda pelo "Clube de Jornalistas" (rua das Trinas, 129), mas já jantei no SENHOR VINHO (rua do Meio à Lapa, 18), uma boa casa de fado, com um serviço de restauração à altura do que podemos esperar em locais idênticos.

Já que falo de fado, uma noite calhou ir ao CLUBE DO FADO (rua S. João da Praça,86), em Alfama, um local da nova geração, com muito boa oferta musical e o nível restaurativo expectável.

Passando agora para Alcântara, noto que continua a comer-se muito bem no PAINEL DE ALCÂNTARA (rua do Arco, 7/13), onde o meu amigo Cardoso (irmão do proprietário do "Comilão") mantém uma aposta de qualidade, de que sou testemunha desde a primeira hora, há quase 30 anos.

Ambos colaboram agora numa nova e meritória aventura, o vizinho PAINEL GRILL (rua Gilberto Rola,20), que só visitei uma vez, mas com bastante bom proveito.

Quase em frente, no 21 da mesma rua, falta-me rever o velho "Alazão" e, um pouco acima, no largo da Armada n. 31, o “31 da Armada", que o MNE conhece pelas “espanholas” e, ao lado, no nº 36, a “Tasca da Armada”, que me dizem manter a qualidade.

a caminho da Ajuda, mas não muito longe, confirmei por duas vezes a qualidade sempre sustentada do SOLAR DOS NUNES (rua dos Lusíadas, 68).

Na zona mais ocidental da cidade, mas junto ao rio, do outro lado da via férrea, duas confirmações, uma nota e uma descoberta.

O CAFÉ IN (avenida de Brasília, 311) continua com muito boa qualidade, embora os preços comecem a parecer apenas compatíveis com as bolsas da clientela angolana e brasileira que, felizmente, por lá se vê em quantidade. A cafeteria, ao lado, tem um serviço errático e uma comida assim-assim, mas, no exterior, é um espaço bem simpático para os dias ensoleirados.

O VELA LATINA, na doca do Bom Sucesso, perto da Torre de Belém, mantém a qualidade de sempre, com um ambiente discreto, profissional e propício para uma conversa calma (o self-service anexo é ... um self-service).

Um pouco mais adiante, o DARWIN'S CAFÉ, na Fundação Champalimaud, continua a impressionar mais pela beleza do espaço do que pela qualidade da comida, que me parece necessitar de um rápido "upgrading".

A descoberta feita por essa área - e que descoberta! - foi a FEITORIA, o magnífico restaurante do Altis Belém Hotel. Cozinha de elevada qualidade, num espaço muito agradável, com um serviço bem à altura. Um restaurante que dignifica Lisboa.

E já que estamos por aquelas bandas, uma nota sempre positiva para o RELENTO (avenida dos Combatentes da Grande Guerra, 10), a excelente cervejaria de Algés, onde há décadas me não desiludo.

Voltando ao centro da cidade, dou-me conta que ainda não passei pelo sempre excelente "Gambrinus" (rua das Portas de Santo Antão, 23), nem pelo vizinho "Solar dos Presuntos" no 150 da mesma rua), ambos mesas garantidas. No 185 da avenida da Liberdade, faz-me falta rever, ambos situados no Hotel Tivoli, a "Brasserie Flo" e o magnífico "Terraço".

Dando agora um salto ao Chiado, e para nos mantermos no registo da grande cozinha, é justo referir o grande salto de qualidade que José Avillez fez dar ao velho BELCANTO (largo de São Carlos, 10), um espaço com grande história (e onde houve grandes "histórias"...). Tive por lá, há poucos dias, uma refeição soberba!

Do mesmo chefe, muito agradável, mas num registo menos exigente, encontra-se, quase em frente, o CANTINHO DO AVILLEZ (rua dos Duques de Bragança, 7), um lugar por ora talvez demasiado na moda para o meu gosto como frequentador, mas com uma excelente relação qualidade-preço.

Um destes dias, tenciono ir conhecer a "Pizzaria do Avillez", logo ao lado. Na zona do Chiado, tenho ainda visitas a fazer, mais cedo ou mais tarde, ao "Tavares" (rua da Misericórdia, 37), ao endereço novo do "100 Maneiras" (largo da Trindade, 9) e ao "Largo" (rua Serpa Pinto, 10) (Neste último, na minha (e não só minha) opinião, baseado em duas ou três visitas pode estar a desperdiçar-se um pouco a genialidade de Miguel Castro Silva, que do seu trabalho no Porto (e no "Bull & Bear" do seu tempo) deixou grandes saudades.

E, nestes meses, não fui ainda comer ao Bairro Alto! Estou com curiosidade em saber que será feito do "Papaçorda" (rua da Atalaia, 57) e do vizinho "Casanostra" (travessa do Poço da Cidade, 60), como andarão os filetes do "Primavera" (travessa da Espera, 34), qual será a lista atual do "Antigo Primeiro de Maio" (rua da Atalaia, 8), muitos anos depois do meu amigo Santos ter decidido passar à reforma. E os clássicos “Farta Brutos” (travessa da Espera, 20), “Bota Alta” (travessa da Queimada, 35), o "Fidalgo" (rua da Barroca, 27) e o renascido "Alfaia" (travessa da Queimada, 18), de onde há muito vi desaparecer os lombinhos à indiana, servidos pela Isabelinha? Que outras coisas novas haverá por lá? E como andará o bife da “Trindade” (rua nova da Trindade, 20)?

Mais acima, na rua da Escola Politécnica, tenho por hábito juntar-me a uma discreta tertúlia semanal no ROTA DAS SEDAS (rua da Escola Politécnica, 231), um espaço agradável e com um desenho de arquitetura interior pouco habitual. Perto, no 33 da Alexandre Herculano, verifiquei que o 33 se mantém com um ambiente simpático e a oferta gastronómica tradicional.

Na zona, espero poder, em breve, regressar ao "Assinatura" um restaurante, numa rua discreta (rua Vale do Pereiro,19), o qual, a meu ver, não tem merecido um destaque à altura da qualidade da sua oferta.

Muito próximo, importará também verificar como evoluiu essa boa aposta que foi "Pedro e o Lobo" (rua do Salitre, 169).

Um pouco mais acima, no n. 16 da rua da Artilharia 1, tenho confirmado a constância do MEZZALUNA, uma das minhas mesas de estimação.

Por ali perto, no Pátio Bagatella, não se sai desiludido do SABOR & ARTE (rua Artilharia 1, 51).

Lá no topo, no alto do Parque Eduardo VII, há muito que não passo pelo "Eleven", um restaurante de luxo cuja relação qualidade-preço não me convenceu nunca por completo.

Muito próximo, jantei há dias muito bem no SARAIVA'S (rua engº Canto Resende, 3), um restaurante cujo “estilo” sempre liguei muito ao do antigo "Belcanto"…

Andemos umas centenas de metros. Junto à Gulbenkian, confirmei, por mais de uma vez, a melhoria no DE CASTRO ELIAS (avenida Elias Garcia 180B), onde a mão de Miguel Castro Silva deixou uma marca muito positiva.

Senti o vizinho O POLÍCIA (rua Marquês Sá da Bandeira, 112A) algo triste, mas ainda muito recomendável naquela que é uma das listas mais tradicionais de Lisboa.

Já ao lado, o clássico (nasceu em 1946!) CORTADOR OH! LACERDA (avenida de Berna, 36), pareceu-me ter parado no tempo.

Ainda na mesma zona, tenciono, quanto puder, aproveitar a esplanada na "Gôndola" (av. de Berna, 64) e confirmar se  "Adega da Tia Matide" (rua da Beneficência 77), se mantém em forma, expressão pedida de empréstimo à imensidão de futebolistas que a frequentam.

Do mesmo modo, pergunto-me como andará esse restaurante familiar que é a "Colina" (rua Filipe Folque, 46), talvez uma das mais clássicas mesas das Avenidas Novas.

Já no Campo Pequeno, no SPACIO BUONDI - NOBRE (avenida Sacadura Cabral, 53B), Justa e José Nobre oferecem uma cozinha de excelente nível, num restaurante que não é tão conhecido quanto o deveria ser.

Seguindo para as bandas de Entrecampos, no n. 30A da rua com esse nome, confirmei que O POLEIRO mantém, nestes tempos que não são fáceis para o setor da restauração, uma muito boa e constante qualidade, o que me leva, sempre que posso, a aí visitar os meus amigos Aurélio e Manuel Martins.

Um pouco mais adiante, quase no alto da Avenida da Igreja, situa-se um dos melhores restaurantes de Lisboa, o SALSA & COENTROS (rua Coronel Marques Leitão, 12), onde o Duarte e a sua equipa servem uma cozinha alentejana com bons apontamentos transmontanos, dando justo destaque àquela que é hoje uma das grandes mesas de Lisboa.

Muito perto, num registo de cervejaria típica de Lisboa, jantei há dias bastante bem no TICO-TICO (avenida do Rio de Janeiro, 19).

Para os lados da avenida de Roma, tenciono em breve dar uma saltada ao "Isaura" (avenida de Paris, 4), um clássico familiar perto da avenida Almirante Reis, avenida ao fundo da qual, no seu nº1, nunca é demais lembrar que se situa uma das melhores cervejarias de Lisboa, o "Ramiro".

Para terminar, alguns registos soltos, ainda por Lisboa.

No alto da calçada do Galvão, na Ajuda, o ESTUFA REAL, um dos mais belos espaços lisboetas para um dia de sol, sem ter baixado a qualidade, pareceu-me estar a sentir os efeitos da crise.

Por ali perto, tenho alguma curiosidade em saber se "A Paz" (largo da Paz, 22) se mantém à altura da boa imagem que criou.

Do outro lado da cidade, junto à estrada da Luz, o GALITO (rua da Fonte, 18B) continua a afirmar-se, sempre sob a batuta do meu amigo Henrique e a sabedoria herdada da dona Gertrudes, como uma das melhores mesas alentejanas de Lisboa (e como andará, ali perto, em Carnide, o sempre recomendável "Miudinho"?).

Regressando perto do rio, gostei de jantar uma noite no FAZ FIGURA (rua do Paraíso, 15B), a dois passos da "feira da ladra", depois do seu renascimento pela mão de Jorge Dias (e a "Bica do Sapato", ali quase ao lado, como estará?).

Junto ao Campo de Santana, fui experimentar, sem deslumbre mas também sem desgosto, o CAFÉ DO PAÇO (Paço da Raínha, 62), uma espécie de "remake" do velho Pedro V (ele próprio um sucedâneo mais afinado do antigo "João Sebastião Bar").

Não muito longe, voltei com grande satisfação ao discreto e excelente HORTA DOS BRUNOS (rua Ilha do Pico, 27), um segredo bem guardado perto da Estefânea.

Logo adiante, tenho curiosidade de ver se a cervejaria "Portugália" (avenida Almirante Reis, 117) se mantém igual e, no género, como andará o bife do café "Império", no 205 da mesma avenida.

Uma nota na rua de Campolide 258, para a TASQUINHA DO LAGARTO, onde mesmo os benfiquistas e portistas, com esforço, podem vir a ter uma mesa e apreciar boas doses de excelente comida portuguesa.

Para terminar, num improvável espaço dentro do centro comercial das Amoreiras, encontrei um lugar bem estimável, sob o estranho nome de CANTINHO REGIONAL SERRA DA ESTRELA, com uma lista simpática, preços razoáveis e serviço muito atento.

Apenas quatro notas nos arredores de Lisboa.

Uma palavra bem positiva para a ADEGA DO COELHO, em Almoçageme, um pouso simpático para grupos de amigos.

E duas notas costeiras.

Continua a comer-se muito bem em Carcavelos, na PASTORINHA.

E, a caminho do Guincho, o MONTE MAR permanece com grande qualidade, embora, naturalmente, tenha saudades do excecional "Porto de Santa Maria". 

Do outro lado da cidade, em Moscavide, jantei muito bem no DELICIA DE MOSCAVIDE (rua Bento de Jesus Caraça, 21), um local popular, barulhento mas com bela comida.